O que fizeram com a sua segunda-feira?

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Você julga que a vida possa ser vivida apenas como um dia após o outro? Que o destino está escrito e que o esforço é em vão? Que o trabalho é um mal necessário para o sustento e que o pior dia da semana é a segunda-feira? Que passando num concurso público está tudo definitivamente resolvido?Se estes questionamentos lhe inquietam e a resposta não lhe parece clara, você apreciará este livro em que o autor aborda o tema da felicidade de forma inovadora. Tendo a sua própria vida como plano de fundo, Bruno mostra o que de fato funciona através da ciência que estuda a felicidade acompanhada de mais de vinte exemplos práticos, nos quais, conduz o leitor a se perceber em muitas das situações descritas. Transferindo o ônus da verdade para os achados empíricos e livrando-se da ideia comum de que livros de autoajuda precisam resolver todos os nossos problemas, o autor convida a reflexão acreditando que desta via surgirão às mudanças de nossa vida.
Sérgio EraldoPresidente do grupo Bozano
Desconectadas do sentido do trabalho, uma multidão sofre com o anoitecer do domingo e encara o trabalho como uma provação. Este livro faz um bom apanhado das pesquisas científicas atuais sobre felicidade, aprendizado e motivação, junta isso tudo a depoimentos pessoais, e certamente faz uma contribuição para quem está em busca de sentido na vida – sete dias por semana.
Russo BurgiermanDiretor de Redação da Revista Superinteressante
A cada página a vontade de transformar as segundas-feiras em dias inesquecíveis se torna maior. Com facilidade encantadora, Bruno traduz a verdadeira realização de apaixonados pelas suas carreiras em fonte de inspiração para o leitor.
Fabiano LeoniGestor de Felicidade da Reserva
Um estudo comportamental, maduro e profundo que vai abastecer com ideais, coragem e um tanto de paz os corações ansiosos por mudanças.
Juliana MendonçaCanal Continuecurioso

Conheça várias histórias incríveis de quem tomou as rédeas da própria vida e gosta da segunda-feira

Sinceridade
Gabriela KapimNutricionista
Gabriela Kapim

Sua segunda-feira é ensinar crianças a se alimentar

Quando o assunto é criança e criatividade, Gabriela é uma especialista. O sucesso que tem sido o seu programa na TV, que agora se transformou também no livro Socorro! Meu filho come mal, prova o quão crítica é sua visão não só sobre a alimentação, mas também sobre o comportamento dos pequeninos.

“Um dia cheguei para dar aula de capoeira no pátio de uma escola e falei com meus alunos: ‘De quem é essa mochila que está aqui no meio do chão?’ Um deles respondeu: ‘Kapim, o meio do chão é um lugar muito relativo, não é?’. Fiquei intrigada com aquilo e perguntei como isso podia ser. Ele me respondeu: ‘É, considerando que a Terra é redonda, o meio do chão pode ser qualquer lugar do mundo.’

Essa reflexão veio de uma criança de 6 anos. As crianças pensam de uma forma mais clara e distinta do que o raciocínio que fomos levados a ter.

“A gente tem que prestar atenção a como falamos com a criança. O que a gente faz tem que ser muito coerente com o que a gente diz. Eles prestam atenção em tudo. Se eu falasse que tem que lavar as mãos antes de cozinhar, e elas me vissem cozinhando sem lavar as mãos, elas me denunciariam.”

Gabriela foi uma criança que não gostava da escola. Os problemas que ela enxergava e enxerga até hoje em outras crianças é muito claro: a excessiva teoria sem prática. “O que eu falo e o que os outros falam pra mim só faz sentido se eu vejo isso na prática, se eu vivencio e se eu vejo o outro vivenciando. Senão, fica só no blá-blá-blá, e então não acredito em nada. Esse eu acho que é um pouco o raciocínio das crianças.” Ela dizia a seu pai nos tempos de escola que era má aluna porque aquilo não fazia sentido, mas que na faculdade seria outra história. Começou então o curso de Comunicação Social e já no primeiro período foi reprovada em cinco matérias das sete que havia escolhido. “Qual desculpa eu daria ao meu coroa agora? Eu havia escolhido o curso, mas tomado uma decisão errada”, lembra.

Nessa mesma época, Gabriela começou a se interessar mais por alimentos. Em viagens com amigos tinha o hábito de cozinhar para eles, ia a restaurantes para provar coisas diferentes e em casa inventava novos pratos. Então nasceu a vontade de fazer Nutrição, curso que unia saúde com seu interesse por alimentação. Só havia um problema: essa decisão não foi recebida tão facilmente por seu pai. Ele achou péssima a ideia de abandonar o curso de Comunicação Social, que era bem-visto, pela insegura carreira de nutricionista: “Ele acreditava piamente que eu nunca conseguiria fazer dinheiro com essa opção.”

Decidido a fazê-la desistir dessa ideia, o pai de Gabriela a levou para o hospital onde trabalhava para ela conversar com um nutricionista, o que seria um fi asco para os planos dele. “O nutricionista que eu conheci era apaixonado pelo que fazia. Eu passei o dia todo no Inca (Instituto Nacional de Câncer), com muitas crianças enfermas, adultos à beira da morte, e o nutricionista tinha um amor enorme por aquilo que ele fazia. Ele conseguia de fato passar a importância e o valor do alimento e da nutrição para aquelas pessoas, o quanto aquilo podia reverter o quadro clínico delas. Eu fi quei encantada e meu pai quis matar o nutricionista”, ri.

A partir daquele dia Gabriela Kapim não teve mais dúvidas: seria nutricionista de qualquer forma. Fez o curso de Nutrição e finalmente passou a tirar várias notas excelentes. Chegou a tentar abrir, com uma sócia, uma casa de atividades voltada para crianças, mas não deu certo. No entanto, a ideia de trabalhar com crianças não saía de sua cabeça. Só não sabia de que maneira faria isso – ainda.

“Eu nunca abriria um consultório, porque requer um custo fixo altíssimo e uma demanda de clientes enorme pra poder sustentar. E buscando uma solução, tive a ideia de atender em domicílio, porque nesse caso eu teria somente o custo do deslocamento. E aí fui entendendo que dessa forma eu tinha uma visão do núcleo familiar e de dentro do problema que não teria se estivesse em um consultório.”

Esta foi a grande sacada! “Quando a criança e seus pais saem de casa e vão ao consultório, já chegam ‘ensaiados’ para aquele momento com o nutricionista. Em casa isso não acontece. Quando eu estou na casa dos clientes, as crianças estão de chinelo, bem à vontade, e os vejo cozinhar. Isso evidencia um monte de questões que no consultório eu demoraria meses pra conseguir pegar.”

Unindo o útil ao agradável na vida profissional, Gabriela desenvolve este trabalho com crianças há mais de quinze anos, e há um ano realiza um programa de TV. Todo início de semestre, leva aos novos alunos do curso de Nutrição na Universidade Estadual do Rio de Janeiro aquela centelha de paixão que obteve em sua conversa com o nutricionista do Inca. E é esse bate-papo que pode ajudar os alunos que ingressam no curso a reforçar sua escolha ou desistir dela.

“Eu digo a eles: se não faz seus olhos brilharem, saia daqui. Vá fazer outra coisa! Se você não gosta de comida, saia dessa faculdade. Porque só quando eu fiquei realmente satisfeita com o que eu estava fazendo é que o dinheiro passou a existir na minha conta bancária. Enquanto eu fiquei correndo atrás dele, ele corria de mim. Eu acredito no que estou fazendo. Eu acho que isso é fazer o bem, esse é o jeito que eu consigo levar o conhecimento que adquiri na faculdade.” Encontrar o amor na nutrição e entender o universo particular das crianças foi determinante para o sucesso de Gabriela Kapim.

Dedicação
Beto GattiFotógrafo
Beto Gatti

Sua segunda-feira é livre à criatividade

Com os mesmos sinais de hiperatividade e déficit de atenção de Dame Gillian, o fotógrafo Beto Gatti, também não sentia empatia pelo ambiente escolar.

“Como eu nunca fui um aluno exemplar, eu precisava me destacar de alguma outra forma. Já que eu não seria o melhor aluno, fazia questão de ser e mostrar a todos que eu era o pior aluno. Mas o mediano, o medíocre, isso nunca. Em tudo que eu sempre fiz, precisava ser o 80 ou o oito, mas a metade não.”

Neste ponto, Beto deixa claro que não se sentia bem em ser o pior, mas ser a média o incomodava ainda mais. Também não quer dizer que ser um péssimo aluno na escola seja premissa de sucesso. É só uma constatação de que o sistema educacional nem sempre qualifica aqueles que serão bem-sucedidos.

Durante as primeiras aulas no primário, que ele considerava monótonas, Gatti passava todo o tempo desenhando. Essa atividade o fazia se desligar do mundo a sua volta. Ele olhava para a professora e só conseguia notar a sua boca mexer, mas não ouvia os sons. Estava claro que sua vocação envolvia a criatividade, mas o que ele poderia fazer com aquilo ainda não era tão óbvio.

Chegou o ano do vestibular, e ele precisava decidir que carreira seguir. Optou por desenho industrial, pensando que neste curso haveria a possibilidade de usar sua criatividade e habilidade.

“A minha escolha não foi baseada na ideia de ganhar dinheiro com a minha carreira. Eu queria desenhar, colocar a minha criatividade para fora. Acho que ter posto o dinheiro em segundo plano nessa decisão me ajudou bastante.”

Agora, em contato com pessoas parecidas com ele e aulas que tinham ressonância com seu jeito de ser, Beto se lembra de chegar a uma conclusão que esperou por toda a vida escolar: “Se isso aqui for estudar, eu quero fazer isso para o resto da minha vida.”

Ele havia encontrado algo pelo que, pela primeira vez, tinha vontade de acordar cedo e de se aperfeiçoar. Agora, como ele amava o que fazia, tudo pareceu mais fácil. De péssimo aluno na escola, tornou-se um dos melhores na faculdade. “Qualquer trabalho que tinha, eu me dedicava ao máximo. Imergir naquele mundo era prazeroso e o resultado sempre era satisfatório.”

Até que um dia, normal como todos os outros, mudou definitivamente os próximos anos de sua vida. A coordenação do curso na faculdade comunicou que haveria uma palestra e que todos deveriam participar para cumprir horas extracurriculares. Mais interessado em cumprir os créditos do que no assunto, Beto foi com seu amigo de infância, Bruno Arruda, para a apresentação.

Chegou à sala uma jovem mulher cuja aparência já inspirava sucesso. O professor a introduziu contando que aquela mulher era sua ex-aluna e que hoje vendia roupas para o mundo inteiro. Antes que ela começasse o discurso, Beto se lembra de ter olhado para seu amigo e ambos terem percebido a mesma coisa. Eles viram que a história dela se encaixava com a ideia que ambos tinham. A palestra foi o empurrão de que eles precisavam para criar sua própria marca de roupa. Munidos de desejo e paixão incontroláveis, eles começaram a se movimentar.

Foram muitas discussões, reuniões e pesquisas sobre como fariam aquela ideia dar certo. Visitaram ateliês, fábricas, fornecedores até que uma mulher chamada Verona, estilista e professora de corte, resolveu adotá-los e ensinar tudo que eles precisavam para fazer aquele sonho se tornar realidade. Eles tinham uma mentora e isso seria imprescindível para a concepção do projeto.

Antes de começar aquela loucura, eles precisariam de um nome. A marca surgiu pouco depois, de uma conversa entre os três sócios. Aquela história se chamaria Treelip, uma junção de Three(três) e das iniciais de Live Insane Person (pessoa de vida insana). Apesar de não terem dinheiro, porém muita determinação, as coisas foram acontecendo para eles.

A Treelip começou a fazer ensaios fotográficos para divulgar as peças, e as vendas aumentaram muito. Na mesma época, as redes sociais começaram a surgir. “Eu fazia os ensaios fotográficos e podia colocar as fotos para todos verem no orkut. Eu lembro que só podíamos ter no máximo 600 amigos e 12 fotos no álbum. Portanto, essas imagens deveriam ser os melhores cliques com os melhores modelos.”

O resultado de sua audácia e força de vontade foi o sucesso imediato da marca, atraindo investidores, mesmo com o pouco tempo de vida. Treelip agora teria uma loja física no metro quadrado mais cobiçado da moda no Rio de Janeiro: na rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. “Eu cheguei no lugar com que eu sempre havia sonhado em muito pouco tempo, mas eu paguei neste mesmo intervalo com muito suor.”

A empresa tinha crescido muito rapidamente, e eles não estavam preparados para isso. Da mesma maneira que fora exponencial e acelerado o crescimento, foi a sua queda. O resultado é que meses depois tiveram que fechar a loja. “Foi um investimento gigantesco e pouco planejado”, lamentou.

Em seguida vieram os desentendimentos e, não muito tempo depois, a sociedade acabou, dando fim ao projeto de seis anos. Gatti conta que se lembra de acordar e dormir pensando no seu projeto e de repente ver tudo desmoronar. Às vezes ficava olhando para o lugar onde sua loja costumava ficar, na Aníbal de Mendonça. “Fiquei completamente desnorteado, não sabia o que fazer da minha vida. Não tinha nem acabado a faculdade. Tudo que eu tinha eram histórias. Meus amigos de infância já tinham se formado e meu irmão estava aprovado em um concurso público. Todos tinham a vida encaminhada, e eu na estaca zero como meia década atrás.”

Desesperado, tentou voltar ao mercado de trabalho. Pediu emprego a um de seus amigos que era dono de uma agência. A resposta foi inesperada: “Eu te daria um emprego, mas eu não quero estragar sua vida. Eu não vou fazer isso contigo. Aqui não é seu lugar.” Até o amigo enxergava o que já deveria ser óbvio para Beto.

Beto era alguém que naquele momento tinha dificuldade de entender qual era a sua vocação, de encontrar sua essência. Definitivamente trabalhar em uma empresa entre quatro paredes e sem muita liberdade seria voltar para o modo cartesiano das aulas na escola – o que não tinha nada a ver com seu perfil.

A falência da Treelip foi um grande trauma, mas não faria Beto correr para opções mais convencionais. “Eu poderia ter corrido para algo mais estável, mas definitivamente esse não seria eu. Eu me matriculei em um curso de fotografia e comecei a dedicar minha vida a aprender a ser um bom fotógrafo. Estudei o que os melhores fotógrafos do mundo faziam. Como eles tiram a foto, como eles usam a luz, e como o modelo se posiciona.”

Isso ainda não era sufi ciente e não faria ele se tornar um fotógrafo reconhecido: havia um mercado cheio de pessoas com as mesmas técnicas e com mais experiência que ele. Até que mais uma vez sua audácia surpreendeu.

“Eu comecei a mandar meus contatos para todas as empresas relacionadas à moda. Comprava as principais revistas e adicionava todos os nomes que eu via no facebook. Maquiadores, diretores, fotógrafos e modelos. Quando eu começava a postar foto do meu trabalho, as pessoas que curtiam eram justamente aquelas que eu havia adicionado e que tinham tudo a ver com o que eu estava fazendo. Dessa forma, os contatos foram aparecendo e fui convidado para fazer a campanha de uma das maiores fornecedoras mundiais de cosméticos.”

Um desses novos contatos acabaria se tornando seu mentor nessa nova investida. Pierre Thomé de Souza era a pessoa certa e estava disposto a ajudá-lo. Não muito tempo depois, estava ele fotografando Will Smith no Hotel Fasano, Oskar Metsavaht, da Osklen, para a Harper’s Bazaar, Jaslene Gonzales na Times Square em Nova York, o artista Romero Britto em seu ateliê, o famoso designer Christian Audigier e a atriz Bruna Marquezine em Los Angeles. Vários podem associar seu sucesso como fotógrafo ao fato de ter feito uma marca que gerou status e contatos para ele. Todavia, Beto finaliza dizendo que o único legado que a Treelip deixou foi a maneira como ele aprendeu a buscar o sucesso nas coisas que faz. Entender que primeiro é preciso gostar do que faz e depois trabalhar noites a fio para ser o melhor – e que, dessa herança, a escola não poderia ser a doadora.

Paixão
Larissa MacielAtriz
Larissa Maciel

Sua segunda-feira é dia de estar diante das câmeras

Desde pequena Larissa já era apaixonada por histórias. Até hoje suas professoras do jardim de infância lembram que ela se envolvia nas historinhas que contavam a ponto de chorar com as mais tocantes e sentir pavor com as mais assustadoras. O drama estava em seu sangue. Essa qualidade inata foi explorada desde cedo na escola, que organizava passeios para levar os alunos ao teatro.

“Eu comecei a fazer aquilo como uma brincadeira. Eu chamava as minhas amiguinhas do prédio e criava uma pecinha, dirigia e era a atriz principal. Mas era uma brincadeira, eu nem sabia que isso era uma profissão, era só a coisa que eu mais gostava de fazer no mundo. E aí eu fui descobrindo depois aos poucos que isso era uma profissão, que eu podia me tornar atriz.” Ela vivia o máximo possível aquele prazer que envolvia a encenação e o teatro. Desenvolvia sua habilidade enquanto brincava.

Aos 11 anos, Larissa começou a levar a brincadeira de criança para o lado profissional. “Comecei a realizar workshops, oficinas de teatro e aulas mais práticas. Depois entrei em um grupo de teatro amador, já com 15 anos de idade, e pouco depois veio o vestibular para artes cênicas. Meus pais sempre me deram todo o apoio. Eles nos educaram dizendo a mim e ao meu irmão que deveríamos fazer aquilo que nos faz feliz. Esse apoio foi imprescindível.”

Contudo, eles mantinham os pés no chão pedindo que Larissa tivesse outro plano caso aquele caminho que ela estava traçando não desse certo. Mesmo com as incertezas da vida de atriz, Larissa não teve dúvidas. Fez o que precisaria ser feito. “Eu entrei na faculdade com 18 anos. Um ano depois, um professor me convidou para entrar em um grupo profissional que ele dirigia e eu comecei a trabalhar profissionalmente como atriz. Em paralelo com este trabalho, eu queria muito fazer cinema. Sempre adorei assistir a filmes. Na época, não existia nenhum curso de cinema em Porto Alegre. A única coisa que existia era uma especialização em cinema na PUC para quem fazia jornalismo e publicidade. E eles produziam curtas-metragens. Fui lá dizer que eu estava estudando para ser atriz e que eu adoraria participar de alguma forma dos filmes que eles estavam fazendo.”

Então apareceram os primeiros trabalhos em comerciais e, já no fim da faculdade, o espetáculo Menino Maluquinho 2000, que ficou cinco anos em cartaz. Com a formatura veio o desespero de ainda não ter uma vida estável. “Quando a gente se forma, fica um vazio, porque o tempo que a faculdade ocupava fica ocioso. Para complicar ainda mais, eu só tinha a renda da bilheteria do teatro e seria ilusão viver só com isso. O ator que não é conhecido nacionalmente ou que não possui um bom patrocinador dificilmente consegue se sustentar. Então eu comecei a fazer tudo o que podia. Eu pensava da seguinte forma: ‘tenho um bom conhecimento adquirido em todos esses anos de faculdade, sou uma pessoa comunicativa, tenho ferramentas para fazer várias coisas. O que posso fazer com o que aprendi?’ E eu adorava fazer o que eu fazia, não queria mudar de profissão por causa de dinheiro. Então comecei a produzir cursos de interpretação, inclusive para a TV, treinamentos empresariais usando técnicas teatrais e também fui mestre de cerimônia para várias empresas. Tudo o que eu podia fazer usando as coisas que aprendi e que gostava de fazer, eu fazia. Esses trabalhos me mantinham, e eu havia prometido a mim mesma que até meus 30 anos eu seria independente da ajuda dos meus pais.”

Coincidência ou não, no dia de seu aniversário de 30 anos, Larissa recebeu um telefonema de um produtor da Rede Globo convidando-a para o teste da minissérie Maysa, que eles produziriam em breve. Larissa competiu com mais de 200 outras candidatas. “Eu acredito muito que a gente traça o caminho da gente, que a gente escolhe o que vai ser. Comigo sempre aconteceu assim. As coisas que eu imagino que vão acontecer acabam acontecendo de alguma forma. Acho que você canaliza a sua energia para aquilo e dá certo. Aí eu topei fazer o teste.”

Decisão
Marcos SifuSurfista
Marcos Sifu

Sua segunda-feira precisa ser insana

“Você está louco!”, essa frase foi a que Marcos mais escutou na vida. Tanto dentro do mar, onde fazia suas acrobacias inovadoras, quanto fora dele, levando uma vida dedicada ao surfe. Ele estava atendendo aos desejos do corpo e da mente. Enfrentar a opinião dos outros e manter-se fi rme no que gostava de fazer, independentemente se ganharia dinheiro com isso, foi determinante para chegar aonde chegou. Marcos hoje é um surfista mundialmente reconhecido pelas acrobacias inovadoras e com um estilo único de encarar a vida.

Dificilmente a sociedade aceitará que uma pessoa escolha o surfe como profi ssão. “É uma chantagem de expectativa, porque muitas vezes você deixa de fazer aquilo que gosta porque o pai é contra, a mãe é contra; depois dá errado e você tem que ouvir. Imagina que desgosto? A melhor coisa que a minha mãe fez pra mim foi falar: ‘você não está aqui para atender à minha expectativa nem à do seu pai ou à da sua namorada, você está aqui para atender às suas. Você quer sair da faculdade? Problema é seu.’”

Marcos fazia marketing e estava no sexto período. Decidiu abandonar quando se deu conta do futuro que teria se continuasse naquele caminho. “Se eu não saísse, eu iria terminar no centro da cidade e eu não queria de forma alguma este fi m. Estagiando, atrás da mesa, dedicado a um trabalho no qual eu seria com certeza incompetente.”

Marcos usa a mesma relação de medo/coragem dentro d’água e na vida. Ele encara de forma ímpar o seu controle diante das incertezas e perigos que poderiam surgir com a desistência da faculdade. “Aprendi com meu cachorro que o medo é algo que existe apenas em nossa cabeça. Eu adoro arremessar galhos para ele. Quando eu jogo um galho no mar, ele tem um pouco de medo das ondas, porque ele já tomou caldo. Mas tem um lugar aonde eu o levo que tem uma boca de rio, e de vez em quando eu jogo o galho lá, em vez de no mar. Ele adora e não tem medo nenhum. Só que esse rio é cheio de crocodilo, e ele não está nem aí. Então eu acho que isso vem dos pais também. Eu sou o pai dele, e não falei pra ele que tem crocodilo ali; só estou incentivando, ele está adorando e nada aconteceu. Grande parte das nossas preocupações nunca vai acontecer. Os pais fazem isso. Eles botam os medos: ‘olha, ali tem crocodilo, ali tem onda.’ E você acaba não fazendo. Talvez se você não soubesse que aquilo pode dar errado, você iria até lá e faria.” O resultado das suas escolhas impactará significativamente na sua felicidade. Atender a sua essência, e nem por um segundo ignorar o medo, é o que mais deve importar.

“Fui muitas vezes criticado pela minha família e pelos meus amigos. Ouvi amigo meu falando: ‘você está maluco, você nunca vai ser surfista’. E eu não pensava em ser surfista, eu estava surfando. Fazia aquilo o tempo todo porque me fazia bem, até que uma empresa quis me patrocinar e aquilo foi crescendo, e eu fui me ajudando. Eu não estava pensando em retorno, eu estava pensando em viver, em viajar, eu queria sentir o gosto daquilo ali, eu queria saber como era a vida das pessoas que escolheram surfar.” Os mais críticos poderão alegar que é muito mais fácil quando temos quem sustente nossos sonhos. No entanto, muitas pessoas têm a mesma oportunidade e a renunciam. Abrem mão de seus sonhos mesmo tendo todo respaldo possível. Ele soube encarar as incertezas e seguiu em frente.

Marcos tinha uma situação financeira que o permitia se dedicar ao esporte por um tempo, mas não por toda a vida. Ainda que não visse o trabalho como fonte de renda, de alguma forma ele teria que fazer dinheiro com o surfe. De louco a bom exemplo, Marcos tinha se tornado famoso e marcas o patrocinavam. Com essa virada, vem a eterna preocupação com a vida, com o dia a dia. “O fim é hoje, não é? Por que não? A felicidade só vai me interessar hoje, porque se hoje eu estiver depressivo sabendo que eu ficaria feliz lá na frente, eu não sei se chegaria lá na frente e como chegaria. E eu vejo vários amigos que me criticavam e hoje em dia sentem orgulho pelo meu êxito.”

Marcos entende que devemos buscar realizar nosso sonho, e não seguir uma carreira só pelo status. Hoje algumas pessoas buscam uma motivação extra e que pode ser fantasiosa. “Não se deve fazer nada pelos outros, fazer algo para postar no seu instagram ou no seu facebook, e sim porque você quer fazer. Tentar seguir os motivos certos, que a sua intuição e o seu coração mandam. Porque será legal. Às vezes você não sabe por que, mas quer muito. Só o fato de querer muito já é o bom motivo que você precisa.”

Uma amiga dele que hoje é médica contou-lhe sobre sua decepção: “Ela queria ter sido arquiteta. Eu perguntei pra ela: ‘por que você não fez arquitetura?’, e ela respondeu: ‘meu pai achou que eu seria uma boa médica e por isso segui esta carreira.’” Perseguir nossos sonhos faz com que exploremos verdadeiramente nossa essência. Marcos, quando não está surfando, transmite campeonatos para a televisão, pratica skydive e ajuda na AdaptSurf, ONG que ele ajudou a fundar. Essa instituição hoje auxilia 350 pessoas com deficiência física a aprimorar sua mobilidade pelo contato com a natureza. O modo de vida de Marcos inspira as novas gerações e muda as pessoas.

Coragem
Renato CoelhoPiloto de Aeronaves
Renato Coelho

Sua segunda-feira é no céu

Renato sempre alimentou o sonho de ser piloto de aeronaves, algo que só conseguiu depois de passar por muitos obstáculos e reviravoltas. Foi preciso coragem para enfrentar um dos maiores desafios desta decisão: abrir mão de um bom salário e da estabilidade em uma empresa pública pela paixão de uma profissão instável que não remuneraria tão bem por algum tempo.

Quando jovem, já de posse de uma licença de piloto privado - primeiro passo na carreira de um piloto – fora orientado pelo pai a primeiro fazer uma faculdade para depois prosseguir neste sonho. “Meu pai falava que era uma carreira insegura. Que você precisa ter ensino superior, caso a empresa quebre ou você seja demitido. Fazer uma faculdade me ajudaria a ter uma opção caso alguma coisa desse errado.” Renato seguiu os conselhos do pai e foi fazer engenharia. Logo após a formatura, inscreveu-se, sem muitas pretensões, em um concurso para analista de sistemas de um banco público. Por sorte – ou azar – do destino, grande parte do que foi exigido na prova coincidiu com o que ele havia aprendido nos últimos semestres da universidade. Ele então foi aprovado e chamado para este novo emprego, com excelente remuneração, plano de carreira atraente, e estabilidade. Nesta época, a aviação comercial atravessava grave crise, tornando praticamente inútil qualquer esforço de perseguir uma carreira neste setor.

Começou sua vida no trabalho novo, mas em pouco tempo já não estava satisfeito naquele ambiente. “O concurso é muito legal para quem quer tranquilidade. Eu não me realizava naquilo. A minha satisfação profissional não estava ali, onde todo dia era a mesma coisa, onde não havia estímulo, não havia desafio e não havia reconhecimento.” Não demorou muito e a inquietação aumentou; a vontade de ser piloto voltou a falar mais alto. No entanto, essa decisão implicaria abrir mão de todos os benefícios que o concurso lhe proporcionava. “Quando eu comecei a falar em sair, vários outros colegas também expressaram uma grande desmotivação e um desejo por novos desafios. Hoje, dez anos depois, ainda estão todos lá.” Nas palavras de sua esposa Carla, “o Renato tinha dentro dele uma coisa que estava acima de tudo, que era querer ser piloto. Em qualquer lugar em que estivesse, ele ia dizer que não estava feliz, porque não estava pilotando um avião”.

Nesta fase, com a vida toda organizada, esse tipo de opção teria impacto em todos os projetos para o futuro. Um bom emprego na aviação proporcionaria metade ou um terço do salário que ele ganhava. Mas antes disso seriam necessários alguns anos em empregos com pouca ou nenhuma remuneração, para adquirir a experiência necessária – e até estes estavam escassos!

Não havia outra coisa a fazer a não ser aguardar uma boa oportunidade aparecer. E apareceu na forma de um processo seletivo para uma grande empresa nacional.

“Para concluir os treinamentos que faltavam e as etapas da seleção, o jeito era ir conciliando com o meu emprego estável, pedindo folgas para estudar, dias de férias para viajar e para fazer prova. Você vai dando o jeito que pode.” A seleção foi concluída em agosto de 2001, com admissão prevista para outubro. Um mês antes, os imprevisíveis atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos causaram um abalo tão grande na aviação que a poderosa empresa suspendeu todos os planos de contratação, e acabou indo à falência um tempo depois. “Este acontecimento acabou com meus planos naquela época. Foi um balde de água fria!”

Outra oportunidade de ingressar na aviação comercial só apareceria dois anos depois, agora para uma pequena e iniciante empresa regional. Mas a paixão dele é pelo ar, pelo avião, não importa o tamanho. A opção de voar tinha se tornado irreversível, porém, o risco ainda era enorme! Para minimizá-lo, Renato pediu uma licença não remunerada no banco. “É como a rede de proteção para o trapezista: está lá para não ser usada. O trapezista salta para chegar ao outro lado, não para cair na rede. Mas sabendo que ela está lá, ele salta com mais segurança. E, se a mão escapar, ele até cai, mas não morre.”

Dessa forma devem ser suas atitudes quando você pretende mudar de carreira. Nem toda transformação precisa ser coberta de ris cos e incertezas. Você deve firmar o pé antes de completar o passo e, se precisar saltar, use algum tipo de rede de proteção.

Deu tudo certo, e Renato disse adeus ao emprego estável para aceitar o emprego na então pequena companhia regional. Ficou por lá cinco anos até se mudar para outra companhia aérea brasileira, onde trabalha há seis anos. E a licença não remunerada? Expirou. Mas não precisaria mais da rede de proteção: agora já podia voar!

Depois de mais de dez anos voando em jatos, em rotas internacionais, Renato finalmente recebe um salário próximo ao que recebia no emprego público, apesar de não ter nenhuma estabilidade, mas com uma impagável vantagem: é feliz em seu trabalho. “Não espalhe, mas o meu trabalho é o mais prazeroso de todos! Ser piloto é a melhor coisa do mundo. E ainda recebo para isso!”

Diversão
Karen JonzSkatista
Karen Jonz

Sua segunda-feira precisa ser divertida

Buscando sempre o prazer nas suas atividades, Karen fez quando criança aulas de piano clássico e bateria, enquanto desenhava por todos os cantos e praticava muitos esportes. Seu encontro aos 17 anos com o skate – para alguns tardio – foi tão apaixonante e arrebatador que nada mais fazia sentido se não houvesse as manobras e os passeios com seus amigos todos os dias. Ela era uma menina em meio a um monte de rapazes também realizados com aquela atividade. Era o último ano na escola e, como todo jovem, precisava cursar uma faculdade, ambiente que defi nitivamente não era o seu, mas que não a impediu de terminar os dois cursos que começou. Formou-se em Rádio e TV e em Design.

Nesse tempo, completamente vidrado pelo skate, Karen conta que sua vontade era andar toda hora. O dia inteiro. No terceiro ano do ensino médio, quando a paixão nasceu, ela andava cerca de sete horas por dia. Já na faculdade a carga foi reduzida. “A faculdade era no período da manhã. Comecei a trabalhar também. Eu morava em Santo André e ia à faculdade em São Bernardo. De lá pegava uma carona e ia à aula da tarde. Como eu sempre chegava duas horas antes da aula, tinha tempo sufi ciente para aproveitar uma pista de skate que havia por perto. Obviamente, depois dessa atividade, eu chegava à faculdade toda suada. Aí saía ao fi nal da tarde, pegava um trem, metrô e mais um ônibus para voltar para casa, ou vinha a pé. O segundo curso era em São Paulo.”

Karen ainda trabalhava até o início da noite e só tinha de 21h às 23h para andar de skate. No dia seguinte, precisava estar de pé muito cedo para repetir tudo. Mesmo com a rotina cansativa, Karen diz não ter achado ruim: “Isso nunca foi uma coisa que me incomodou muito porque, se eu conseguisse andar de skate, o resto ficava bem. E eu tinha uns pensamentos como ‘se o mundo fosse invadido por zumbis ou caísse uma chuva de meteoros, destruísse tudo e eu tivesse ainda o meu skate, eu ia ser feliz’. Eu me lembro de pensar isso muitas vezes.” Os fins de semana eram de uma alegria incomparável, quando Karen podia andar de 10h da manhã às 22h da noite. Atividade extremamente exaustiva, mas que não a cansava. Poderia fazer isso várias vezes na semana se o tempo permitisse.

Um dia, as brincadeiras saíram das ruas e foram para os campeonatos. “Em meu primeiro campeonato fiquei em último ou penúltimo. A competição é um esquema diferente, você fica nervoso, é uma pressão e dá tudo errado. Eu estava começando a andar. Nessa época eu andava com os meninos pela rua. Era só diversão. Eles me chamavam e eu me lembro de ficar receosa por ser a única menina. Eles insistiam: ‘Você tem que ir, você é da turma, você anda com a gente!.’” Divertindo-se com o skate e participando de alguns campeonatos de vez em quando, Karen conseguiu patrocínio após vencer o circuito europeu e o primeiro título de expressão em 2006, com o terceiro lugar no X-Games, importante campeonato no cenário mundial. “Fui convidada a participar com o sorriso no rosto, muito feliz de estar ali, e acabei ficando em terceiro. Ganhei um excelente cachê para quem foi lá apenas se divertir. E eu pensava: ‘Sério que eu faço o que eu gosto e ainda estou ganhando dinheiro pra fazer isso?’.”

A consequência de todo esse encantamento pelo esporte somado à prática culminou no seu bicampeonato mundial em 2008. E mesmo atingindo o topo duas vezes, Karen descreve o ano seguinte como o de maior engrandecimento pessoal e profissional. “Eu já estava morando nos Estados Unidos, treinando lá e aqui. De 2008 para 2009 o bicho pegou, porque a premiação do feminino se igualou ao do masculino. Para o feminino significou duplicar o cachê. Pensei comigo: ‘Vou ganhar de novo, eu preciso ganhar novamente.’ E eu lembro que fizesse chuva ou sol, eu estava lá treinando. Era pelo menos doze horas por dia durante semanas. Lembro-me de chegar à pista e chorar porque eu não aguentava mais andar. Mesmo assim algo me fazia continuar. E era a sede pelo pódio.”

Nesse instante Karen tinha posto o sucesso à frente da felicidade e isso só poderia dar errado. “Tinha virado uma coisa chata, porque eu tinha que ir pra academia de manhã, andar de skate à tarde, mu dar toda a alimentação. Era só proteína, não comia doce, não comia fritura, não bebia. E aí começou a ficar entediante e depressivo. Era o segundo ano em que eu estava fazendo isso.”

O seu rendimento nos treinos aumentou dado ao preparo, mas já não havia tanta alegria em praticar por conta das obrigações que foram impostas para a conquista do campeonato.

“Chegou o dia e eu era a ‘Robocop’. Simplesmente imbatível, não tinha como ganhar de mim. Andei muito, andei melhor que todo mundo.” No entanto, totalmente contra o esperado, ela ficou em segundo lugar. Aquele momento foi um desastre profissional para Karen, mas de um engrandecimento pessoal sem precedentes. “Percebi que ganhar não tinha valor algum. Pensei: ‘Vou viver isso até quando? Sinto-me infeliz, estou longe da minha família e dessa forma já não vejo mais prazer em andar de skate. Não quero ficar aqui bitolada, treinando.’ Então decidi que era hora de voltar ao Brasil.”

De 2009 a 2012, Karen ficou relativamente afastada dos flashes e da cobrança pelo alto desempenho. “Descobri um equilíbrio e isso que me fez voltar. Não precisava ser oito nem 80. Não queria ser alguém que necessariamente precisa ganhar tudo. A vida não é um pódio e não dá para ganhar o tempo todo.”

Assim a felicidade retomou seu posto correto colocando o sucesso como consequência. Em 2013, Karen Jonz novamente subiu ao mais alto pódio sendo líder desde a primeira etapa do circuito, dominando tudo e levando a taça de tricampeã mundial de skate em San Diego, nos Estados Unidos. Fora das pistas de skate, Karen ainda desenha roupas para sua própria marca, Monstra Maçã, participa constantemente de programas na TV e tem seu próprio canal com dicas no youtube. Em seu facebook, mais de 1 milhão de fãs acompanham a humilde, carismática e brilhante carreira da jovem mulher skatista.

Equilibrio
Bruno MelloEmpreendedor Digital
Bruno Mello

Sua segunda-feira é estar com a família

Fundador e presidente do maior portal sobre marketing no Brasil, Bruno Mello é um desses exemplos que conciliam a responsabilidade do cargo com a dedicação às coisas simples. “Até o nascimento das crianças, a minha fonte de felicidade era o mundo do marketing, só que não existe alegria maior do que um filho. Hoje a minha rotina é acordar, pegar o meu filho no colo, dar mamadeira, prepará-lo todo para o colégio, levá-lo até lá e só depois ir à empresa. Fico no trabalho o suficiente para resolver tudo o que preciso e volto para casa para ficar mais com a minha família. Fim de semana a gente aproveita para sair também.”

Esse olhar mais simples da vida não cabe apenas aos gigantes do mercado. Os níveis inferiores da pirâmide (gerentes, coordenadores e até os cargos operacionais) também podem sofrer do mesmo problema. Ainda que tenhamos um trabalho extremamente recompensador que esteja conectado a nossa essência, ele precisa ser equilibrado com os demais compromissos de nossa vida, especialmente o pessoal.

O portal foi ao ar pela primeira vez em 2006 e em 2014 já atingiu a marca dos mais de 2 milhões de acessos mensais. O portal é nacionalmente conhecido no meio dos profissionais de Marketing e Comunicação. O caminho foi árduo, mas houve retorno. No início do seu negócio, Bruno dedicava-se por volta de quatorze horas por dia ao projeto. Mesmo trabalhando essa carga excessiva, ele fazia por prazer. O trabalho tinha propósito e isso o alimentava. “Eu não faço nada por fazer, eu faço porque eu gosto, porque eu tenho paixão e quero fazer da melhor forma possível. E assim eu gerava conteúdo para o portal o dia inteiro.”

Esta atitude o levou ao sucesso. Bruno conta a particularidade de seu ofício: “Eu adoro a segunda-feira. Acordo disposto para ir à empresa porque vejo lazer em tudo que faço por lá. Além desse prazer constante, contemplo minha família e amigos sempre. Dessa maneira me sinto completo.”

Ainda que essa realidade possa ser distante de você, o que vale aqui é entender que todos podem conciliar trabalho, família e as coisas simples da vida. Isso de fato é o que vale. O sol nasce para todos, mas a sombra é para quem merece. Nunca culpe alguém ou algo pelo que tenha acontecido com você. A única coisa na vida para a qual não tem jeito é a morte e o mundo de oportunidades estará sempre aberto aos que decidem agarrar as oportunidades e pagar o “preço” do sucesso. No entanto, não esqueça que todo esforço que te faça negligenciar as outras esferas da vida de nada vale.

Força
Aleksander LaksPalestrante
Aleksander Laks

Sua segunda-feira é cumprir uma promessa de vida

Era 1927 e nascia em Lodz, na Polônia, uma criança que desafiaria a morte e viveria para contar uma importante história de vida. Mais tarde, aos 11 anos, viu a Alemanha invadir sua cidade exterminando o exército de seu país em poucos dias. Não demorou muito até que o jovem rapaz de nome Aleksander Henryk Laks fosse apresentado aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Presenciou por diversas vezes amigos e parentes amarrados ou enforcados no alto de postes da sua cidade natal, além de soldados alemães arrancando barbas de judeus com as mãos, deixando suas faces expostas em carne viva. Isso era apenas o início de longos anos de terror que o jovem polonês, hoje orgulhosamente naturalizado brasileiro, vivenciaria. Ele estava no epicentro de uma das maiores histórias de massacre que marcou a história da humanidade: o Holocausto, acontecimento que deixou milhões de pessoas mortas, boa parte delas judias.

Com fome, Aleksander foi forçado a sair de sua casa inúmeras vezes e, em sua cidade, fundaram um enorme gueto – local onde se amontoavam 160 mil judeus em um espaço que cabia 25 mil. As mortes começaram a ser em maior escala a ponto dos cadáveres serem empilhados por conta das covas já não serem mais sufi cientes. A fome começou a assolá-los de forma ainda mais grave. “Comíamos cerca de 200 calorias diárias quando deveriam ser pelo menos 2.400. Não seria possível viver assim por mais de oito meses, mas eu vivi por mais de cinco anos”, afirma.

Não só de falta de alimento padeciam os judeus. “A criatividade maligna dos nazistas transcendia os limites da crueldade a ponto de um cano de descarga ser direcionado para dentro do caminhão lotado de pessoas na caçamba fechada. Era uma câmara de gás móvel!”

A pouco menos de dois anos para o fim da guerra, a Alemanha sofria baixas constantes do exército e a família de Aleksander à beira da morte por fome. Viveram em um esconderijo por muito tempo até que precisaram sair e se entregar às tropas alemãs. A falta de comida os forçou.

A SS conduziu sua família a embarcar em um trem que partia ao sul, onde trabalhariam em uma grande metalúrgica. Lá, segundo os alemães, haveria comida – mais uma mentira. Todos seguiam em direção ao maior campo de extermínio de toda história humana: Auschwitz. Na entrada deste campo havia a inscrição Arbeit macht frei, “O trabalho liberta”, sugerindo que de fato eles tinham sido levados para algum lugar que os trataria bem, mas não passava de uma estratégia para manter a ordem.

O trem parou na estação e todos foram empurrados para fora dos vagões aos gritos. O céu estava vermelho, rasgado por uma imensa chaminé que expelia uma fumaça. Essa fumaça era derivada dos corpos incinerados nos fornos crematórios por anos a fio, vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Famílias inteiras. Naquele início do ano de 1944, começaram a fazer um tipo de triagem, não enviando diretamente as pessoas às câmaras de gás e ao crematório.

Chegando ao campo, as mulheres iam para um lado e os homens para o outro. “Dessa forma, de mãos dadas ao meu pai, que me segurava com força, dei um aceno distante a minha mãe. E nunca mais a vi.” O destino dela não seria diferente de tantos outros. Continuaram a caminhar, até que um dos companheiros de seu grupo resolveu perguntar algo a um dos guardas da SS que ali estavam e a resposta foi: “Cale a boca! Você está em Auschwitz! Aqui só existe uma saída: pela chaminé.”

Longos meses se passaram até o início do ano de 1945, quando os russos começaram a avançar e se aproximar cada vez mais de Auschwitz, forçando os alemães a se retirarem. Destruída pela guerra, a Polônia já não tinha mais meios de transportes como antes e começaram o que Aleksander descreve como o maior desvio da imaginação doentia dos alemães na Segunda Guerra Mundial: a Marcha da Morte. As pessoas iam morrendo pelo caminho e eram recolhidas em carroças de uma aldeia a outra. Essa remoção acontecia porque não podiam deixar pistas para os aliados, tampouco evidenciar chacinas que os incriminariam futuramente. Não se podia parar. Aqueles que se deitavam e não conseguiam mais se levantar morriam congelados ou mesmo fuzilados. De manhã, já estavam inchados. “Meu pai já não era o homem bonito e forte de antes”, descreve com orgulho a figura paterna. “Ele não podia mais andar e então disse: ‘Filho! A guerra está no fim. Se não formos fuzilados você talvez sobreviva. Se você sobreviver, conte tudo o que aconteceu conosco. Conte sempre, ainda que as pessoas tenham dificuldade para entender tanta maldade. Eu já não posso andar. Não consigo; cheguei ao limite. Eu vou me sentar.’ Desesperado, respondeu: ‘Pai! Se você sentar, sentarei ao seu lado. Não quero viver sem você; não quero viver mais.”’

Com a ajuda de alguns outros judeus que estavam por perto, eles prosseguiram. Não muito tempo depois, a saúde de seu pai se agravou com a disenteria. Vítima de surra aplicada pela tropa alemã, ele veio a falecer aos 44 anos de idade e pesando menos de 30 quilos. O corpo estava na latrina junto de vários outros, sendo depois queimado. “Esse momento foi a última vez que vi meu pai e o último lugar que eu passaria naquela guerra.”

Ao fim, já entregue à morte, Laks, recolhido no canto de um trem, já sem esperanças, recebeu um copo de leite de um homem que salvou sua vida. Restaurou as energias mínimas que ele precisava para continuar vivo. “Meu filho, que hoje é médico, disse que aquele copo poderia ter me matado. Com tanto tempo sem alimento em meu organismo, digerir aquele leite seria fatal. Mas eu não morri. Estou vivo!”

Aleksander sabia que tinha parentes no Brasil e veio no final de 1948 e início de 1949 para ficar definitivamente. Nos anos 1980, começou a fazer o que seu pai havia pedido: contar, através de palestras, seminários, exposições e a quem quisesse ouvir tudo que ocorreu. O propósito de sua vida seria passar às pessoas a verdade sobre o Holocausto para que nunca mais acontecesse algo parecido. Hoje, repleto de medalhas e honras, Aleksander esbanja saúde com seus 87 anos e ainda executa, com a mesma vontade de sempre, a promessa que fez a seu pai.

A vida de Aleksander é uma das diversas maneiras de viver uma vida feliz e plena: seguir um propósito. Vamos entender por onde mais ela pode ir?

Adaptação
Gerson NunesJogador de Futebol
Gerson Nunes

Sua segunda-feira é falar da alegria nos pés

A paixão pelo futebol para Gérson Nunes veio de berço. Desde cedo, teve muitos incentivos de seu pai, que era jogador profissional do América, e de seu tio, jogador do Fluminense. Como resultado da inclinação ao esporte, somado ao incentivo familiar, com apenas 18 anos é contratado para atuar pelo time profissional do Flamengo: “No ano de entrada no clube, em 1958, conquistei o Tricampeonato Carioca, e em 1960 fui convocado para a seleção brasileira com o objetivo de disputarmos as Olimpíadas de Roma no mesmo ano. E aí você já sabe, nós nunca fomos bons em Olimpíadas e voltamos sem nada.” A primeira convocação para um mundial só veio em 1966. Quatro anos depois foi novamente chamado, desta vez para integrar aquela que foi para muitos a melhor seleção de todos os tempos, a seleção brasileira de 1970. “Ali era um grupo focado para ganhar a Copa do Mundo. Nada mais importava do que vencer aquele torneio, e nós jogávamos um futebol alegre. Saímos de lá com o tricampeonato mundial.”

Quando comparado com as seleções brasileiras atuais, Gérson chega à mesma conclusão que as pessoas que tiveram o privilégio de ver esta Copa costumam reportar: “Naquela época éramos 80% técnica e 20% condicionamento físico. Hoje é ao contrário. Os jogadores são muito melhores fisicamente, mas em geral com uma técnica muito inferior. Se déssemos esse preparo físico para aquele time de 1970 a seleção titular de hoje não teria vaga nem para carregar o material sujo de treino desta equipe que passou.”

De fato Gérson era um jogador de futebol diferenciado. Conhecido como “Canhotinha de Ouro”, seus lançamentos de perna esquerda tinham a mesma precisão quando feitos a dez ou a 40 metros de distância.

Grande parte desta técnica é resultado direto do comprometimento do jogador com um futebol de qualidade, que o levava a treinar lançamentos diariamente, por várias horas. “Depois que o treino acabava eu pegava uma baliza, essas que usam em corrida de salto, e a colocava na meia-lua da grande área. Ia até o lado oposto do campo e ficava lançando bola com o objetivo de acertar o meio da baliza que eu havia posto. Fazia isso por umas três horas, todos os dias. No dia do jogo eu fazia exatamente a mesma coisa. O quarto zagueiro saía e eu lançava a bola para o Jairzinho ou quem estivesse na posição dele. A gente nem precisava olhar um para o outro. Era automático.” A missão de lançar as bolas era exatamente o seu papel em campo e, quando isso era feito com a perfeição que havia treinado, Gérson conta que ficava ainda mais feliz do que se fizesse um gol. Porque ele não estava ali para fazer gol, mas para cumprir seu papel de criação.

Em todos os clubes pelos quais passou no futebol profissional, Gérson conquistou títulos. Optou por se aposentar em 1974, encerrando a carreira no seu time do coração, o Fluminense. “Eu sempre fui Fluminense, mas também sabia dividir o pessoal do profissional. Ao jogar pelos outros clubes eu dava o meu máximo, independentemente se torcia por outro time.”

Após se aposentar dos gramados, Canhotinha realizou mais um sonho que cultivava havia muito tempo: ser comentarista de futebol. “Eu sempre gostei de falar de futebol, então eu sonhava em ser radialista. E a mesma certeza eu tinha de não ser técnico de futebol. Não teria paciência com alguns diretores e jogadores.” Passou por diversas emissoras de televisão e rádios, sendo até hoje um dos principais nomes da profissão. O que muitos não sabem, é que Gérson também dedica parte do seu tempo para ajudar o próximo. Ele fundou o Instituto Canhotinha de Ouro em parceria com a prefeitura local e atende 3 mil crianças, provendo alimentação, assistência médica, odontológica e educação. “Quando eu me aposentei, eu vi que tinha muitas crianças sem oportunidade, então resolvi fundar a instituição. Uma obra com foco social e não de formação de futuros jogadores de futebol. Quando esses casos acontecem, nós encaminhamos a clubes, pois o interesse é desenvolver as crianças para serem cidadãs.”

Sobre a vida dentro e fora dos gramados, Gérson faz uma inteligente reflexão ao fim: “Existe profissão e gosto pela profissão. Enquanto o gosto estiver acima da profissão, pode continuar, porque está tudo certo. Quando a profissão estiver acima do gosto, é melhor parar porque não será bem-feita. Quando essa inversão começou a acontecer comigo, eu me aposentei. Dessa forma, saí dos gramados ainda na seleção brasileira. Hoje sou comentarista e não só gosto, como amo o que faço.”

Adrenalina
Alexandre PulgaLutador
Alexandre Pulga

Sua segunda-feira precisa ter adrenalina

A relação de Alexandre com o que faria para o resto da vida começou aos 12 anos de idade em meio a uma partida de botão. “Eu estava na casa de meu amigo brincando até que vi seu irmão sair pela porta carregando um quimono. Aquilo me criou curiosidade porque eu já havia praticado judô e karatê, mas sua despedida avisando para onde iria com tal vestimenta me surpreendeu: ‘Estou indo para a aula de jiu-jitsu.’ Era 1992, e tudo que eu tinha visto sobre esta luta fora na televisão dentro de um esporte que chamavam de vale-tudo, um ano antes.”

Alexandre, conduzido pela novidade, pediu ao irmão de seu amigo que o levasse e por sorte ele tinha um quimono reserva. “A primeira vez que pus aquela roupa e entrei no tatame eu me lembro de ter a certeza de que ali era meu lugar. Eu me sentia totalmente preenchido e empolgado.”

Tamanha era a certeza naquela época que seu amigo lembrou há pouco tempo de algo que ele tinha dito quando jovem em uma tarde na praia: “Pedro, eu vou ser lutador de jiu-jitsu, eu vou fazer isso da minha vida.” O esporte o deixara tão viciado que ele precisava daquela atividade todos os dias e várias vezes.

“Diferente dos outros esportes que eu tinha praticado, esse me deixou especialmente vidrado. Eu treinava de manhã, estudava à tarde e treinava à noite. Tinha dias em que eu conseguia sair cedo e era motivo para treinar de tarde também. Quando eu não conseguia chegar no horário, eu chorava por não conseguir treinar duas vezes por dia. O meu apelido, Pulga, surgiu nessa época, quando à noite eu pedia para treinar com os adultos. Chegava fim de semana e não tinha treino. O jeito que eu dava era treinar com meus amigos pegando-os como isca do meu vício.”

Pulga chegou a fazer vestibular e ser aprovado para Educação Física, mas não cursou porque aquilo significaria para ele menos horas de treino. “Nunca passou pela minha cabeça isso e nunca tive essa pressão porque era uma coisa natural minha, que eu não ia enjoar Eu fazia porque gostava. Ainda tive a sorte de minha família sempre me apoiar, o que me permitiu seguir com aprovação.”

Então, Alexandre começou a dar aula em academia e, assim, ter o seu próprio dinheiro. Contudo, ele faz um alerta importante: as lutas no Brasil são muito difíceis. “Você não se sustenta com o dinheiro da luta. Você se prepara para a luta três meses, tem que mudar a sua alimentação, gastar dinheiro com todo o preparo e ter ainda algo para cobrir possíveis danos físicos da luta.”

A notícia boa, para uma mente preparada e disposta a dar jeito em tudo, é que é possível conseguir, também, dinheiro para o sustento.

Alguns anos depois, as competições de jiu-jitsu passaram a não dar mais a dose de adrenalina de que ele precisava. Até que chegou a oportunidade de experimentar a modalidade de vale-tudo em um evento para o qual foi convidado. “Foi impressionante. Eu comecei a treinar em minha academia, que não tinha estrutura para aquele esporte. Comecei a fazer boxe, muay thai e a manter o meu jiu- jitsu. Então eu tive minha primeira luta, saí contente com a vitória e a adrenalina no sangue. Porque no estilo de lutas marciais mistas você não sabe o que pode acontecer. Não é como no jiu-jitsu, que você bate e o oponente solta. Agora qualquer erro poderia me fazer parar no hospital. Apesar de ter todas as seguranças do esporte, você não sabe se vai quebrar o nariz, se você vai voltar inteiro pra casa.” Essa adrenalina de estar o tempo todo na corda bamba, na eminência de vitória ou derrota, o motivava.

“Ninguém faz isso somente por dinheiro. Faz por paixão ao esporte. Um advogado, um administrador ou um engenheiro podem não gostar do que estão fazendo, mas vão fazer porque o dinheiro é garantido. O MMA (Artes Marciais Mistas, em português) é diferente; se você não gosta, você não faz. Tem que ter coração, tem que amar o que está fazendo. Então eu me adaptei muito bem a isso.” Com um histórico de 13 vitórias e apenas uma derrota nos ringues, Alexandre mostra que o resultado de toda paixão e esforço é o mesmo sempre. Independentemente da área de atuação que você escolher será bem-sucedido com esses ingredientes.

“Hoje em dia sou reconhecido internacionalmente. Consegui expandir o horizonte do meu trabalho, tenho uma qualidade de vida boa, tenho uma estrutura de treino mundial e já estou no segundo maior evento do mundo, o WSOF (World Series of Fighting). Estou treinando na equipe do Vitor Belfort na Blackzilians e pronto para participar do maior evento do mundo, o UFC.”

A descoberta da essência varia de pessoa para pessoa. Para Alexandre Pulga, ela vem com a intensa atividade física, do esporte exaustivo e da adrenalina de estar no octógono. Para outros, ela surge com atividades passivas e leves como a escrita, pintura ou a fotografia. Não há um único fator ou estrada que nos leve a chegar a esse estado, porém achá-lo será meio caminho para se sentir mais feliz em seu dia a dia.

Gratidão
Alvaro MendesProfessor Universitário
Alvaro Mendes

Sua segunda-feira já foi depressiva

Tudo começou no dia 6 de junho de 2005. Era para ser um dos melhores dias da sua vida. Com apenas 21 anos e cursando Ciências Econômicas na Uerj, ele havia sido admitido no maior banco público do país e possuía uma ótima expectativa de crescimento profissional. Em apenas um ano já havia dobrado o salário inicial.

Parecia algo perfeito para quem cresceu ouvindo das mais diversas pessoas que na carreira profissional o concurso público seria o único caminho interessante. “Se você passar em um concurso, Alvaro, você vai ter estabilidade, dinheiro, tranquilidade e vai ser feliz”, diziam. Contudo, faltava o principal fator: a paixão. Sentimento esse que não estava no concurso, mas na docência. Essa vontade de exercer uma carreira voltada para ensino e pesquisa Alvaro diz ser resultado da admiração que nutria pelos professores que teve na vida. Via como eles se dedicavam à causa e à vocação que tinham de mudar vidas.

Saber o que fazer da vida era só a ponta do iceberg. Ainda precisaria de muita coragem e convicção para realizar a mudança. As pessoas, querendo seu bem, o freavam: “Como você vai abandonar um concurso tão bom? Como pensa em abrir mão da estabilidade? Você ganha muito bem, e a pressão não é tão grande como na iniciativa privada!”. Com tantas pessoas dizendo o oposto do que ele sentia, tentou se convencer de que só poderiam estar certas. No entanto, a cada promoção que obtia, seu bem-estar não aumentava como tinham lhe dito. Trabalhar era cada vez mais uma atividade pesada e cansativa. Diante disto começou a se dar conta de que as pessoas estavam erradas. Somente dinheiro e estabilidade não lhe trariam a felicidade de que tanto falavam.

Ter constatado o erro que havia cometido e saber como acertá-lo foi suficiente para tomar a decisão de mudar a vida. Pediu demissão do emprego estável para que pudesse se dedicar ao processo seletivo de doutorado. No mesmo ano, passou na seleção de um grande centro de Economia. Hoje leciona em Minas Gerais. “O mais difícil foi quando precisei tomar a atitude de sair do trabalho. Você entra em um túnel onde há uma luz ao final e um trem vindo em sua direção. Não dá para recuar mais. Depois que a decisão é tomada, a única saída é provar para si mesmo que você fez a escolha certa. Eu tinha escolhido exercer uma profissão que fazia sentido para mim, e não tinha mais por que retroceder.”

Fé
Irmão AgraziatoReligioso
Irmão Agraziato

Sua segunda-feira é cuidar do próximo

Eu tive o prazer de conhecer uma pessoa como o camponês da história anterior, mas que por sua vez usava hábito, vestimenta própria dos religiosos da Toca de Assis. Quando jovem, aos 14 anos, começou a ler sobre São Francisco de Assis e a sentir um forte desejo de ser como ele. Recorda-se de pegar os livros e se encantar com tudo aquilo. Morador do interior de São Paulo, resolveu se mudar, aos 21 anos de idade, para o Rio de Janeiro, a fim de cursar Museologia na Unirio.

Naquele mesmo ano de sua vinda para a cidade grande, Agraziato tratou de conhecer todas as igrejas da ordem franciscana, e hoje lembra-se de ter se apaixonado pelo convento de Santo Antônio. “Eu saía do estágio no Museu Histórico Nacional e ia direto ao convento, ficava rezando por um bom tempo enquanto a missa não começava. Fui bebendo cada vez mais daquela fonte, e aquilo de alguma forma me direcionava a um propósito maior.”

Já com 26 anos, Agraziato, em conversa com um frei do convento, resolveu dar início a sua vocação. “Fiquei lá por mais de dois anos, até que um dia o frei me chamou para conversar e disse que não seria bom eu continuar. No longo prazo, eu não me identificaria e seria bom dar um tempo. Não entendi muito bem o porquê daquilo, mas acatei como sendo a vontade de Deus para mim.” O seminário era em Santa Catarina e, com a saída, voltou ao Rio de Janeiro para continuar de onde havia parado após a faculdade.

Uma vez distante da vida integralmente dedicada à religião, Agraziato passou a ter uma rotina como a de muitos jovens de sua idade no bairro boêmio de Santa Teresa. Baladas, bebidas e namoros foram tomando cada vez mais espaço em sua vida. “Eu nunca larguei a missa, o terço e a devoção a Nossa Senhora e a São Francisco, mas de fato eu me distanciei bastante. Deus foi muito sábio com sua pedagogia. Eu acho que precisava de certa forma passar por essas experiências para entender ainda melhor o meu caminho.”

Neste mesmo período, Agraziato chegou também a abrir uma empresa. Rapidamente surgiram problemas com os sócios e com o empreendimento, mostrando de forma ainda mais acentuada quão desconectado estava tudo aquilo de quem ele realmente era. Precisava se ver livre daquele peso o mais rápido possível.

Em 2000, aos 40 anos, Agraziato foi visitar a Toca de Assis depois de escutar pela rádio um testemunho de uma irmã que falava sobre o trabalho realizado pela fraternidade. “O meu coração queimava escutando ela falar, e eu vi que era hora de seguir aquele caminho. Fui até a casa dos irmãos, contei sobre toda minha vida e disse que de alguma maneira Deus me chamava para ser um deles. Por sentirem que era uma vontade verdadeira, fui prontamente aceito por eles e comecei a minha caminhada no vocacionado.”

Isso implicaria largar seu trabalho como restaurador de imagens, se desvencilhar de todos os bens materiais, viver uma vida casta e se dedicar integralmente ao Santíssimo Sacramento* e aos irmãos que sofrem nas ruas. “No meu primeiro ano, trabalhei muito nas ruas dando alimento aos irmãos e como aspirante em nossa casa em Madureira, no Rio de Janeiro. Acolhíamos cerca de 30 irmãos dando alimento e banho. Depois me mudei para uma casa em Campinas, onde colocamos 18 macas e começamos a receber pessoas que estavam doentes, mas não tinham onde se tratar. Lá os tratávamos, e eu via no rosto de cada irmão o brilho da luz de Jesus Cristo. Algo realmente que me preenchia de forma indescritível e enchia minha vida de significado.”

Depois dessas experiências, irmão Agraziato ainda passou por diversas casas em Fortaleza, Valinhos, Uberaba, Londrina, nas quais desempenhava o mesmo papel das casas anteriores. Até que seis anos após sua chegada à fraternidade, foi aberta a primeira casa contemplativa da Toca, onde leva até hoje uma vida totalmente dedicada à oração.

Junto a este belo exemplo de vida somam-se centenas de outros irmãos espalhados por todo o Brasil. Todos eles também tiveram que deixar seus familiares, emprego, dinheiro e alguns até namorada, para levar uma vida dedicada aos pobres que sofrem nas ruas da cidade. São chamados de “Filhos da Pobreza do Santíssimo Sacramento”, que, junto com as “Filhas da Pobreza”, compõem a Fraternidade Toca de Assis. O mais impressionante nisso? São incrivelmente felizes e realizados

Mudança
ReimontPolítico
Reimont

Sua segunda-feira é erguer tendas

Nascido em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, Reimont via em sua janela um horizonte limitado de opções para sua vida. “Atrás de minha casa despontava uma serra, aquelas montanhas de Minas que eu e todos os outros meninos de lá achávamos que ao subi-las tocaríamos o céu: ali acabava o mundo e aquele era o meu horizonte.”

Um mundo inteiro se escondia por trás daquela paisagem, e pequenas manifestações em sua vida ditariam seus próximos passos.

O primeiro sinal veio quando brincava de trazer pássaros à gaiola. “Eu ouvia o canto dos pássaros e tentava aprisioná-los em alçapões com canjiquinha dentro, um milho quebradinho que os ‘papa arroz’ e ‘coleirinhos’ adoram. Contudo, a gaiola amanhecia sempre vazia. Meu pai soltava os bichos na calada da noite... Ele era um homem livre de verdade, e homens livres não gostam de aprisionar nada nem ninguém.”

Essa maneira de interpretar as coisas logo resultaria em algo que marcou a vida dele e o fez sair de casa jovem, aos 14 anos de idade. “Era jubileu, festa religiosa de minha região, entre 13 e 24 de junho de 1976. Passando pelo adro do santuário, vi uns rapazes fazendo uma barraca de bambu e lona de plástico. Quando me dei conta, estava eu também ajudando a erguer aquela tenda que serviria para abrigar os mendigos que iam lá pedir esmolas. Um deles havia morrido porque as noites nessa época são muito frias.”

Reimont conta que ficou apaixonado pelo trabalho, mesmo depois de já ter capinado rua e vendido caju de sua “Vó Fina”. De fato, aquele simples trabalho de levantar tenda foi marcante, dado seu significado. À frente dessa iniciativa estavam jovens do Rio de Janeiro, noviços da paróquia dos Capuchinhos. “Posso considerar que o meu primeiro trabalho foi fazer aquela tenda, porque me deu muito prazer e, como disse, mudou minha vida. Trabalho é para isso, para mudar a vida da gente.”

Os jovens missionários foram um exemplo para ele e serviram de chamado de Deus para uma vida igual àquela. Sentia que era seu lugar e que ficaria bem fazendo aquele trabalho. “Vi que eu poderia, como aqueles rapazes, largar minha família, minha casa, minha cidade, meus amigos e me preparar para dar voos mais altos. Fui para o seminário dos capuchinhos e foi esta decisão que, precedida da formação que recebi de minha família, formou o homem que sou hoje.”

Foram longos vinte anos na ordem dos frades capuchinhos, chegando o sacerdócio, no qual se dedicou especialmente aos mais pobres quando dirigia a Paróquia de São Sebastião na Tijuca, cidade do Rio de Janeiro. Uma vida de longas horas de oração, santa missa e trabalhos sociais. Vida com a qual os franciscanos lidam bem.

Depois de muito discernimento e reflexão sobre as coisas que havia vivido, Reimont entendeu que sua vocação não poderia continuar sendo a de padre. O hábito franciscano daria lugar à camisa social de professor secundarista e de marido, sem perder as raízes divinas que o fizeram chegar até ali. Não muito depois, entraria para a política. “Com o tempo, compreendi que era, sim, um vendedor, mas não de papéis ou de algum serviço ou produto. O que eu sabia era vender o que me motivou na infância: sonhos, possibilidades, projetos e perspectivas. Por isso fui para a política, candidatei-me a deputado estadual em 2006, mas perdi a eleição. Em 2008, candidatei-me a vereador e fui eleito, para surpresa minha e de muitos. Em 2012, fui reeleito e vejo que sou muito feliz com o que faço porque, em meio a tanto descrédito da classe política, alguém tem que dizer que há outra realidade possível e que precisa ser costurada por todos.”

Dono de uma reputação ilibada, Reimont é amigo de minha família desde a época de sacerdócio, e eu sabia que sua história seria importante. Não por ter largado uma vida tão bonita como a de religioso, mas pela coragem de entender que não era exatamente aquela a sua vocação e de ir atrás do que fazia mais sentido para ele. Persistir na vida religiosa sem a total entrega à religião não seria benéfico à Igreja nem a ele.

Realizador
Marcelo GalvãoCineasta
Marcelo Galvão

Sua segunda-feira é luz, câmera e ação

De sonho e realização Marcelo Galvão entende, dentro e fora das telas do cinema. A decisão de mudar radicalmente de vida e ir atrás do que realmente era sua paixão aconteceu depois de trabalhar em uma agência de publicidade e propaganda. “Eu sentia que 90% do meu trabalho estava indo para o lixo. Eram trabalhos bons e criativos, mas o que eu fazia não era o que saía, e então resolvi largar tudo. Vendi meu carro e fui morar fora. Eu queria muito fazer um curso de cinema, e Nova Iorque era o lugar perfeito. Óbvio que o dinheiro do carro não seria sufi ciente”, conta Marcelo.

Por ser faixa preta de jiu-jitsu, ele começou a dar aulas em uma academia e a usar este mesmo lugar como seu lar – o tatame era a sua cama. Esse estilo de vida durou aproximadamente um ano, até que, por questões de saúde de seu pai, teve que retornar ao Brasil.

Saiu do país como redator publicitário para retornar como diretor de cinema. Chegou ainda a receber uma proposta de salário quatro vezes maior do que o seu emprego anterior, mas como no trabalho oferecido não havia sinergia com seu sonho de cineasta, foi prontamente recusada. Nada seria mais importante do que fazer logo seus primeiros filmes. Após um convite, começou a trabalhar em uma produtora de São Paulo. Nessa época, Marcelo teve o primeiro contato com a ingrata indústria cinematográfica no Brasil. Algo que o desanimava, mas não impedia de seguir adiante. Produziu de forma rápida um dos longas-metragens mais baratos do Brasil, e em tempo recorde: em apenas uma semana. O medo de ser um fracasso total o fez produzir um documentário sobre a maneira como produzia esse filme. Dessa forma, se o filme fosse um fiasco ele pelo menos teria um documentário. O nome não poderia ser melhor para descrever o que Marcelo estava vivendo: Lado B: como fazer um longa sem grana no Brasil.

Como esperado, deu muita coisa errada. “Os produtores pediram demissão uma semana antes, o técnico de som pegou malária, o fotógrafo saiu e tive que demitir dois atores pouco antes do prazo final. Substituí um dos demitidos por um amigo, e chamei meu cunhado, que era norte-americano, para fazer o papel de um gringo. Só tinha um problema: eles não eram atores. A polícia invadiu o estúdio e até o dono do espaço onde gravávamos pediu para acabarmos logo, porque ele precisaria do local. Enfim, o documentário estava ficando muito bom justamente por tudo estar dando errado. Afinal, estávamos mostrando como é difícil fazer um filme sem dinheiro.” A diretora de arte chegou a dizer a Marcelo que não participaria mais do projeto porque seria um vexame. Essa diretora era, e ainda é, sua esposa.

O documentário acabou sendo selecionado para a 29ª Amostra Internacional de São Paulo e ganhou prêmio de melhor filme escolhido pelo público. O projeto que todo mundo achou que seria um fracasso, acabou indo a várias partes do mundo. Depois desses dois filmes, o documentário e a ficção, Galvão fez mais outros dois longas de ficção, porém foi somente o seu quinto longa-metragem que seria o filme que marcaria pra sempre sua vida e o lançaria na mídia nacional. A produção do filme Os colegas, protagonizado por três jovens com síndrome de Down, contou com a participação de Lima Duarte, Marco Luque, entre outros. Da idealização ao lançamento de um filme tão inovador passaram-se sete anos, muito por conta da escassez de dinheiro. “Ouvi vários famosos do meio dizerem que ‘ninguém quer ver um filme com pessoas com síndrome de Down’. As pessoas querem ver filme com sangue e o vale-tudo estava começando a ficar na moda. Eu já gostava de luta, então achei que seria legal um filme sobre lutas. Mas meu pensamento era que eu ganharia muito dinheiro com isso e com esse dinheiro eu bancaria Os colegas. E aí eu fiz o Rinha, que era o tal filme de luta, e acabei não ganhando nada.”

Contudo, o investimento não foi totalmente em vão. Com o Rinha, Marcelo conseguiu fundar a escola de cinema da Gatacine, que era a sua produtora. Selecionou dez alunos que não sabiam nada de cinema e deu a eles várias aulas teóricas, trazendo também especialistas para ensinar fotografia, direção de arte, produção etc. Em seguida, esses alunos iam a campo. Participando de todo o processo de filmagem do longa-metragem que ele estiver fazendo, os estudantes literalmente acompanham tudo e ajudam a fazer o filme: o desenvolvimento do roteiro, o laboratório com os atores, as filmagens e até as edições finais. Minha reação foi achar que por ser um curso completo, o dinheiro que vinha desses alunos poderia ajudá-lo nos custos, mas Marcelo me surpreendeu dizendo que o curso era gratuito.

Mesmo sem retorno financeiro, o filme Rinha traria, além da possibilidade de abertura do curso, alguns prêmios que foram fundamentais para tocar seu projeto do filme Os colegas. A ideia para essa produção veio de seu tio que tinha síndrome de Down e o proporcionou uma juventude alegre por sempre falar coisas positivas. Ariel Goldenberg, um dos protagonistas com a síndrome, foi peça fundamental na concepção do projeto, inclusive por trás das câmeras. É um garoto que não aceita não como resposta. “Ele ia comigo à produtora não porque ele precisava ir, mas porque ele me dava força para continuar nesse projeto. Um projeto em que você ouve muito não, muito preconceito. E isso foi desde o início. Desde que eu o chamei para fazer o filme, ele já perguntava: ‘Você tem o dinheiro para o filme?’. E eu disse: ‘Não, são 6 milhões de reais. Isso leva tempo.’ ‘Por que você não pede ao Lula?’ ‘Eu não tenho o telefone do Lula.’ Então ele desligou o telefone, e em alguns minutos começaram a chegar várias mensagens de fax com o telefone do Palácio do Planalto. Ele me liga de volta e diz: ‘Agora você tem o telefone, liga pra ele.’” Essa maneira de ignorar as coisas ditas improváveis era uma característica também de seu tio e é tema central do filme. A capacidade de acreditar nos sonhos. Na trama, cada jovem sonha em realizar um sonho diferente. Ariel, no papel de Stalone, deseja ver o mar; Breno Viola, encenando o jovem Marcio, sonha em voar, e Rita Pokk, na personagem Aninha, quer se casar. Todos realizam seus sonhos de forma divertida.

O filme foi um sucesso e ganhou prêmio de melhor longa-metragem nacional no 40º Festival de Gramado. Trabalho esse de todos os integrantes do filme e especialmente de Ariel, que ajudou Marcelo de forma ímpar a prover os fundos para o filme “Ele foi um cara que sempre batalhou. Ele captou sozinho mais de 500 mil reais para o filme. Ele também ajudou a fazer o filme ganhar mais proporções com a campanha nas redes sociais com a hashtag* ‘vemseanpenn’. Contamos às pessoas o que era perseguir seus sonhos. Essa campanha mostrou quem era o Ariel. Ele sonhou e conquistou tudo, só faltava conhecer seu ídolo, o astro de Hollywood, Sean Penn. Tinha se tornado ator de cinema, ganhou prêmio no Festival de Gramado, foi capa da revista Veja e apareceu em vários programas de televisão. Tudo havia sido feito, só faltava esse encontro.” A campanha “Vem Sean Penn” tinha o intuito de trazer seu ídolo para assistir à estreia do filme ao seu lado e contou com o apoio de vários famosos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o jogador de futebol Neymar. Em dois dias, mais de 1 milhão de pessoas tinham assistido ao vídeo. Infelizmente o seu ídolo não compareceu, mas nada que sua incrível capacidade de perseguir sonhos não pudesse resolver.

Ariel pegou um avião para os Estados Unidos com o endereço da casa do Sean Penn em mãos. Bateria na porta dele até que resolvesse atendê-lo, e dessa forma aconteceu. Passaram um dia juntos conversando, comendo churrasco e tirando fotos.

Já no ano de 2014, Marcelo Galvão volta a Gramado com o seu novo filme, A Despedida, levando prêmio na categoria longa-metragem brasileiro de melhor diretor, melhor atriz (Juliana Paes), melhor ator (Nelson Xavier) e melhor fotografia (Eduardo Makino).

Essa característica é fundamental nas conquistas. Nem sempre o caminho é perfeitamente traçado, e dificilmente tudo ocorrerá conforme previsto. “Quando ouvir um não, entender que não se deve desanimar e correr atrás. De um limão, transformá-lo em limonada. Só assim se constrói algo.”

Identidade
Juliana SanaJornalista
Juliana Sana

Sua segunda-feira é se vestir de outra vida

Neste livro eu passo vidas para o papel. Em seu ofício, Juliana não só as passa para a televisão, como as vive em sua própria pele. Ela enxerga a vida de cada pessoa tomando para si os seus olhares. “A minha vontade de ser jornalista não era vontade de ser jornalista, era a vontade de contar a história dos outros.” Começou muito cedo a trilhar seus passos de forma independente, indo morar nos Estados Unidos com apenas 500 dólares na carteira, trabalhando como garçonete e pegando qualquer outro trabalho temporário só para continuar a aventura. Nessa época, Juliana conta que ficava encantada assistindo ao canal de notícias CNN, vendo a vida dos jornalistas que transmitiam guerras e furos de reportagem. Foi então que as coisas ficaram ainda mais claras sobre o que ela poderia fazer.

Voltou ao Brasil e fez faculdade de Jornalismo, acreditando que ao fim da graduação portas se abririam, mas não foi o que aconteceu.

As oportunidades apareceram através de um curso de fotografia, e Juliana começou a tirar fotos: “Era uma coisa que me preenchia muito. Porque eu conseguia contar a história das pessoas através da imagem, captar o momento delas, e então comecei a também escrever. Dessa forma trabalhei por quatro anos como editora de uma revista sobre surf.”

“Depois que eu me formei, comecei a trabalhar com fotojornalismo para jornais e revistas. Eu fotografava e escrevia minhas próprias matérias, até que apareceu uma oportunidade para editar uma revista de surfe em São Paulo. Por três anos fui editora-geral dessa revista, chamada Alma surfe. Isso me abriu muitas portas no mundo esportivo internacional.”

Ainda assim, Juliana não conseguia sentir por completo a vida da pessoa somente com foto e texto. Foi então que teve a ideia de fazer um curso para aprender a fazer documentários.

“Cansada de São Paulo, me mudei para a Califórnia, onde estudei documentário e finalmente entrei para o mundo do audiovisual. A partir daí comecei a trabalhar como filmmaker e videorrepórter, e não larguei mais a câmera. Los Angeles, local do curso, é onde tudo acontece. Alguém que era gari e virou diretor de cinema, a outra pessoa que era limpadora de carro e virou atriz de Hollywood. Essa cidade é o lugar que você pode ser o que você quiser, basta você querer. Então essa atmosfera me contagiou desde essa época, e eu não considerava como trabalho tudo que eu fazia, era uma forma de vida mesmo.”

Sua primeira experiência na frente das câmeras foi para a ESPN, cobrindo eventos. Ela conta que entrevistava várias pessoas durante mais ou menos quinze minutos, mas quando desligava a câmera e conversava com o entrevistado, ali se revelava outra pessoa. “Na entrevista eles falam o que desejam. Mostram o que querem. Atrás das câmeras é que vemos que não são tão felizes quanto pareciam ser, e que a vida não é tão bela como a TV mostra. Alguns possuem problemas sérios de família, outros, como um que entrevistei, tinha a mãe muito doente. Você passa a ver que todos possuem um drama por trás daquele mundo perfeito da ficção.”

Foi por um trabalho de conclusão de curso que a inspiração para contar histórias à sua maneira veio à tona.

“Eu tinha que criar um documentário com alguma coisa que estava ao meu redor. E eu na época não tinha dinheiro pra morar sozinha, então eu morava com mais três meninas: uma americana e duas brasileiras. As três tinham dramas, e eu comecei a documentar a vida delas. Uma tinha uma filha pequena, era a mãe solteira com inúmeros outros problemas. A segunda menina tinha depressão e o pai estava doente no Brasil. E a terceira menina, que era advogada, estava nos Estados Unidos e queria muito ficar por lá. A sua solução seria pagar um rapaz para se casar com ela, porque ela queria ficar e só se tornando cidadã americana isso seria possível.”

Juliana começou a documentar a vida de apenas uma das três, porque entendeu que seria uma história com um universo a ser explorado: a menina que queria se casar de forma ilegal. Este documentário a inspirou para os próximos trabalhos. “Com essa ideia eu criei o meu programa: fazer parte da rotina das pessoas. Só assim quem você está acompanhando esquece que você é um jornalista, que você está com uma câmera ligada, e é nessa hora que você vê a vida da pessoa de verdade, a vida daquele personagem. Isso é algo que não me ensinaram na faculdade. Nunca tive esse formato, de ser um jornalista que entra na casa da pessoa e fica. Eu pensei: isso é diferente, ninguém faz, e eu acho que funciona muito bem, as pessoas gostam. Não tem como um filme ser mais real do que viver a vida dessas pessoas.”

O seu programa, intitulado Na pele, foi imediatamente aceito pelo canal Multishow e foi ao ar, em sua primeira temporada, com dez histórias de vida distintas. Ela vivia cerca de dez dias com cada uma dessas pessoas e seguia à risca o jeito de elas levarem a vida. Procedeu tal como cada uma delas, sendo boxeadora, funkeira, moradora de rua, paparazzi, stripper, diretora de filme pornô, fotógrafa de tubarões, domadora de cavalos, rainha de carnaval e equilibrista de circo.

Da descoberta do que gostava de fazer – ou seja, contar histórias – até o efetivo encaixe em alguma profissão, não foi um caminho fácil. Como muitos, seus pais queriam algo diferente para a filha. “Meu pai é economista, extremamente culto e via valor em viajar o mundo. Ele já morou na África, Itália e em diversos outros lugares. Minha mãe é socióloga e professora. Para ela existiam poucas profissões possíveis para os seus filhos, dentre elas advogado e médico. Eu até cheguei a prestar vestibular para Direito e Odontologia, mas minha viagem a Nova Iorque, aos 18 anos, me salvou de vir a fazer um desses cursos.” Insistir foi muito importante, pois dificilmente alguém se destacará no mercado pela excelência na sua atividade sem que haja paixão. Trabalhar com algo que não nos agrada jamais nos fará aperfeiçoar a ponto de termos uma vantagem competitiva. Ninguém faz bem o que faz se o fizer contra a vontade, mesmo que seja bom, disse, no século IV, o filósofo e doutor da Igreja Católica, Santo Agostinho.

Significado
CaduArtista Plástico
Cadu

Sua segunda-feira é injetar significado à vida

Os sinais sobre as inclinações artísticas de Cadu vieram cedo, mas aos poucos. “Ao lado da casa da minha vó paterna havia, ou ainda há, uma paisagem que acredito ter influenciado profundamente as minhas aptidões.” Seguindo sua primeira intuição, aos 14 anos se inscreveu em uma aula de modelo vivo na Escola de Artes Visuais no Parque Lage. Foi uma fase importante de sua vida, porque se lembra de sentir que aquele espaço teria muito a ver com o resto da sua história.

Antes de se fixar como artista plástico, por necessidade ou desejo, ele ocupou diversos cargos. “Trabalhei em restaurantes, no comércio, em carpintaria, em agências de publicidade, na área de ensino, como montador de exposições, como produtor e assistente de artistas. Assumo que cada uma delas, em seu tempo, foi importante para tornar-me o que sou e para me manter na direção de meus desejos. Não houve desvios ou sacrifícios em vão, pois o importante foi exercê-las com o mesmo estado de generosidade para com o mundo que experimento ao estar envolvido com criação.” Essa procura nos prega peças e muitas vezes traz dúvidas sobre a certeza das escolhas que tomamos. “Por um período de tempo, quando ocorrem os naturais desânimos com nossas escolhas, questionei meus caminhos. Já desejei seguir carreiras diferentes, como por exemplo, atuar na área de Biologia, em campos como Ecologia, Agronomia ou Veterinária.” Como já dito, não nascemos necessariamente para uma única atividade. Há uma gama de opções na qual nossos talentos e aptidões se encaixam, e uma vastidão de outras na qual não há a mínima conectividade. Distinguir bem essas duas esferas é a chave.

A carreira de um artista plástico envolve muitas incertezas que vão não só da sua efetiva escolha, como também do sustento. No entanto, Cadu, que também é professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez questão de deixar claro que esse ponto é facilmente redimensionado entre os apaixonados. “Gosto da ideia de ter que levantar todos os dias e imaginar como colocarei o pão na mesa aquela manhã. Acredito que isso mantém o homem preparado para lidar com imprevisibilidades, relativizar ganhos e administrar perdas com serenidade.”

Simplicidade
Marinaldo PegoraroAgricultor
Marinaldo Pegoraro

Sua segunda-feira é sem agrotóxicos

Era começo do ano de 2009 em Curitiba, as filhas Roberta e Rafaela voltavam de viagem, motivo de alegria para seus pais e de ansiedade para atualizá-las dos últimos acontecimentos. Ainda com as malas cheias, seu pai, Marinaldo (executivo de administração e finanças por trinta e cinco anos), as recebe com uma surpresa: “Filhas, nem desfaçam suas malas. Vamos nos mudar para o sul de Minas Gerais. Papai se desfez da sociedade na empresa, vai vender o apartamento, e vamos todos morar em um sítio.” O trânsito caótico, o estresse com que se vive na cidade grande e os fatores ligados à insegurança tinham chegado ao seu ápice. Aos 49 anos, Marinaldo e sua esposa, Cilmara, entenderam que a transformação precisava ser mais profunda. Uma simples mudança de atividade profissional não resolveria. E desse ponto começa uma história de incrível coragem e inspiração.

Durante uma viagem que Marinaldo e Cilmara fizeram de carro a Minas Gerais, eles passaram por Delfim Moreira, pequena cidade com somente 8 mil habitantes, no extremo sul do estado. Nela, eles conheceram Newton Litwinski, geólogo e empresário que estava implantando naquela cidade uma cervejaria e uma fazenda com produção de orgânicos, mas que não havia largado a cidade grande ainda. O bate-papo que seguiria por telefone algum tempo depois desse encontro seria o estopim para os dois. A série de coincidências na vida deles, com aspectos incríveis como terem nascido em cidades vizinhas de Santa Catarina, estudado na mesma escola e serem vizinhos de rua na mesma cidade no Paraná – anos depois, sem nunca terem se conhecido – estreitou de forma rápida a amizade. Newton largaria Belo Horizonte e Marinaldo, Curitiba. Ambos, cada um com suas respectivas fazendas, plantariam orgânicos e oliveiras. “Decidimos queimar os navios mesmo. Sem pensar muito, voltamos a Curitiba e colocamos o apartamento à venda. Conversei com os sócios para vender minha parte na empresa, e começamos os preparativos para a mudança em duas semanas. Familiares e amigos, pegos de surpresa, ficaram atônitos com todas essas decisões”, relata Marinaldo quatro anos depois.

Marinaldo reitera a importância da velocidade entre tomar a decisão e passar à ação, aproveitando o momento de coragem. “Quando voltamos a Curitiba, após a primeira visita a Delfim Moreira, fizemos tudo e nos mudamos em apenas treze dias, porque eu sabia que, se pensássemos muito, talvez não fizéssemos. O medo entraria em ação, sussurrando dentro de mim: ‘E se der errado? E se eu não conseguir dinheiro, como sustentarei minha família?’.” Postura tão enraizada nele que sua filha, neste instante, nos interrompeu para acrescentar uma frase que havia escutado: “É melhor uma vida cheia de ‘não acredito que fiz isso’ do que cheia de ‘eu devia ter feito isso’.” A coragem se manifestou por um momento e foi o sufi ciente, lição que sua filha também aprendeu.

Algo que ele diz não ter pensado, mas que foi de extrema importância para adaptação de sua família, foi a presença da tecnologia e o avanço da comunicação: “Se fosse há dez anos, seria realmente uma loucura. Sair da cidade grande e se enfiar num grotão da zona rural do país seria um passo para um isolamento muito grande. No entanto, hoje no sítio temos internet, TV a cabo, telefone, celular e todas as vantagens da tecnologia que torna o lugar onde moramos próximo do restante do mundo, ainda que virtualmente.”

Muitos chegam a dizer a ele: “Nossa, que legal sua vida! Que inveja que eu tenho de você. Essa paz, qualidade de vida e a tranquilidade em que vocês vivem...” Todavia, Marinaldo faz um alerta: a sua vida no campo não é mais fácil do que a que tinha na cidade. “É claro que tem pontos positivos, mas há uma série de coisas que não ponderam quando escutam minha história. Na vida rural você faz de tudo. Você cultiva, colhe, embala os produtos, preenche notas fiscais, se preocupa com a regulamentação dos orgânicos e, para fechar o dia, faz planilha para controlar tudo o que fez, faz as contas, olha as dívidas. Começamos nossas atividades às 6h e só paramos depois das 22h. Quando chega o fim do mês, só sobra o sufi ciente para pagar as contas, e qualquer praga pode acabar com nossa receita, já que optamos pelo cultivo sem agrotóxicos. Vivemos nessa luta constante para gerar maior renda, mas sem que isso nos obrigue e escravize, porque assim perderia o sentido. No presente, realizamos nossas atividades com prazer, e o futuro nós confiamos a Deus. Dessa maneira somos felizes”, explica o atual produtor de alimentos orgânicos. Isso foi possível não pela simples mudança de atividade, mas por uma nova maneira de encarar a vida – uma vida mais simples e com o propósito de construir algo, de transformar também o meio social onde se convive.

Essa necessidade do homem de se descobrir, de ter coragem para seguir um novo caminho, mais edificante e espiritualizado, é o ponto-chave para a felicidade, que Marinaldo fez questão de reiterar: “A águia também empurra os filhotes para o vazio; eles não sabem que têm asas, e, quando percebem, começam a voar. Existem momentos angustiantes, e a dificuldade existe em qualquer atividade que se escolha. Mas a sabedoria ensina que a caminhada também é importante, não só a chegada. É nisso que acredito”, resume.

Ter coragem é a capacidade de realizar coisas que os outros e nós mesmos não imaginamos que podemos fazer ou que temos a disposição para desenvolver a habilidade de fazer. É quebrar paradigmas, avançar mesmo com a existência das incertezas, e não desistir, mesmo que haja obstáculos desafiadores ou o risco do fracasso no caminho. A gratificação de ter lutado, de ter saído da zona de conforto para construir algo novo, é imensa e paga o esforço.

Superação
Edmour SaianiConsultor
Edmour Saiani

Sua segunda-feira é estar com pessoas

Edmour carrega consigo a alma de Davi. Filho de um fabricante de sapatos e de uma dona de casa, a sua vida durante a infância e adolescência não foi fácil financeiramente, mas dentro de si carregava todas as capacidades para vencer os gigantes que viriam pela frente. Herdou essas características de berço. “Os meus pais eu definiria como ‘gente’. Meu pai, quando eu voltava da escola, dizia: ‘E aí, se deu bem com todo mundo?’. Já minha mãe, gente com prefi xo: exigente. Ela já dizia: ‘Que nota você tirou?’. Quando eu varria o chão de casa, ao lado vinha ela varrendo também o chão atrás de mim, e completava: ‘Você está varrendo mal. Se você varresse bem, eu jamais precisaria corrigi-lo ou chamar sua atenção.’” Sua vida inteira foi regida assim. Com seus pais, Edmour aprendeu que as coisas precisam ser feitas da melhor maneira possível e que é preciso tratar todas as pessoas da melhor maneira possível.

Estudou a vida inteira em escola pública, e seu primeiro grande desafio seria orgulhar seu pai com a aprovação em uma universidade. Seus pais não tinham condição de financiar um curso preparatório, e muitos poderiam desistir neste ponto, mas Edmour foi além. “Fui até o curso e bati na porta deles, dizendo: ‘Eu preciso fazer o curso, mas não tenho dinheiro.’ Então eles me disseram que tinham um trabalho de datilografar, e que em troca poderiam me dar o curso. Aceitei na hora.”

Nessa mesma época de preparação, seu primo começou a estudar para Medicina. “Ele foi quem mais me motivou, porque eu passava por alguns problemas em casa, e era bom ter alguém para encarar o desafio junto comigo. Nossa rotina era chegar do curso à noite e estudar até 4h da manhã, todos os dias.”

No fim do ano, depois de uma longa trajetória de estudo, Edmour se inscreveu para o vestibular da Universidade de São Paulo (USP) e para o Instituto de Tecnológico da Aeronáutica (ITA), uma das melhores faculdades de engenharia do país – e talvez a mais difícil de ser aprovado. Seu pai só tinha dinheiro para uma inscrição e sua tia teve que ajudá-lo com a outra.

Os resultados vieram, e Edmour foi aprovado para cursar Engenharia em São Carlos, o que ainda não seria toda a recompensa pelo esforço a que havia se proposto. “Não muito tempo depois ligou para a minha casa uma pessoa do ITA dizendo que eu havia passado como suplente e tinha surgido a vaga. Fui contar aos meus pais em prantos, estava cumprida minha promessa de aprovação! Logo em um lugar como o ITA.”

Felicidade incontrolável que daria lugar a uma angústia, porque toda sua vida tinha sido de uma qualidade de estudo muito inferior e os problemas financeiros ainda permaneciam, piorando a situação. “Eu fui o pior aluno do ITA. Tinha que tirar nota sete nas provas, mas eu não era preparado e não tinha a menor vocação. Eu dava aula de português em um cursinho pra poder sustentar meu pai e minha mãe. Aquilo também servia de refúgio da loucura que era a Engenharia. Ela me ensinou muita coisa importante como o raciocínio lógico que hoje sinto usar de forma inconsciente. Não lembro absolutamente nada do que eu aprendi na faculdade, mas tive uma base de convivência com pessoas muito boas e que me fizeram crescer. Saí caipira de Ribeirão Preto e me tornei alguém que entendia melhor o mundo e como ele funcionava. Depois até descobri que eu tinha um bom nível de inteligência, mas os meus amigos de sala eram fenomenais.”

Mesmo naquele ambiente complicado, a sua vida começou a acelerar quando novamente enfrentou desafios ainda maiores. No quinto ano de faculdade, Edmour se casou e teve filhos. “Quando viramos pais, nós nos forçamos a trabalhar ainda mais. Nessa época eu fazia faculdade o dia inteiro, dava aula todos os dias à noite e de madrugada ainda estudava.”

Depois da faculdade fui trabalhar no Centro Técnico Aeroespacial (CTA), Kodak e Johnson & Johnson. Somente trabalhando para a empresa de refrigerante Pepsi, cargo que veio a ter depois no Rio de Janeiro, que ele finalmente pôde garantir seu sustento com folga. Nessa época, Edmour tinha três filhos e ainda ajudava seus pais. Contudo, ainda faltava algo que só viria em seu próximo emprego.

Na Mesbla, cadeia de lojas de departamento, Edmour passou a ter 15 mil pessoas sob seu comando, e a paixão por “gente”, como ele costuma dizer, apareceu. Foram três anos de experiência que o fizeram explorar bastante esse convívio e criar vínculo com seu propósito de vida. Ele era feliz com as pessoas com quem trabalhava e assim deveria ser sempre. Pouco tempo depois, passando por outras experiências e empresas, sua segunda e atual esposa o motivou a largar tudo para empreender.

“Ela disse para mim: ‘Eu te ajudo se precisar.’ E eu nem sabia quanto ela tinha de dinheiro. Mas suas palavras, apoio e conforto foram sufi cientes para a alavancada. Eu morria de medo de empreender, mas era a única saída. Sou empreendedor por indignação. Não sirvo mais para trabalhar nesses lugares. Quanto mais você sobe, mais política tem que fazer. Eu precisava construir minha história e ter uma empresa onde isso não acontecesse.”

Começou apenas com um computador trabalhando em casa. “A empresa era construção de diferencial, virou varejo e hoje é só atendimento estratégico. Eu tenho 40 pessoas na empresa trabalhando comigo e fazendo um negócio muito louco, que é dizer para as outras empresas que elas têm que tratar bem todo mundo, pra que todo mundo dê o retorno que elas esperam. Eu nasci no dia de São Jorge, e minha vida me deu quatro Jorges que foram essenciais para os meus voos solos: Jorge Gerdau, Jorge Fortes, Jorge Garcia e Jorge Schreurs.”

O melhor de sua história ficaria para o final. Não foi sua infância, não foi a aprovação no ITA, tampouco sua empresa. Golias testaria de novo a coragem e a capacidade do pequeno pastor em vencê-lo. Era 2010 quando Edmour foi diagnosticado com câncer. “Um médico me disse que você só se cura de uma doença grave quando você tiver alguém pra quem você queira viver depois. Meus filhos já estavam criados, então minha esposa de certa forma era esse motivo. Ela me apoiou na época que eu queria abrir a empresa e ela é maravilhosa. Sobrevivi e hoje tenho mais a convicção de que o casamento é mais que algo muito bom, mas uma situação em que os dois se doam. Ele só termina quando um dos dois ou os dois param de se doar. E essa ideia eu levo aos meus negócios. Meus funcionários se doam pelos resultados, e eu os retribuo da melhor maneira. Essa doação mútua que faz tudo funcionar.”

Esforço
Alan AlbuquerqueServidor Público
Alan Albuquerque

Sua segunda-feira já foi de muito suor

Assim como um acidente, uma doença grave ou um negócio que foi à falência podem funcionar como um detonador da normalidade e nos levar a alcançar o inimaginável. O fracasso no vestibular foi para Alan como estar debaixo da água a ponto de quase desmaiar. A sua aprovação então passou a ser tão importante quanto respirar.

Muitos podem achar que não obter êxito na prova é normal – e definitivamente é –, mas no caso de Alan, todos os amigos dele tinham sido aprovados. Além disso, havia a decepção de ter que contar aos pais sobre seu ínfimo desempenho nas provas. A comparação social com os amigos e o desconforto diante dos pais haviam feito seu papel. “Sem dúvidas, meu comportamento, minhas atitudes, meus objetivos, minha cabeça: eu mudei aos 17 anos diante da palavra ‘desclassificado’.” Esta palavra, que se repetiu por três ou quatro instituições, foi com a qual mais se deparou ao conferir os resultados dos vestibulares para as universidades públicas do Rio de Janeiro em 2005.

Ele tinha sido reprovado em tudo, e essa situação-limite o levou a repensar a maneira como conduzia sua vida. Ajustando as velas do seu barco para o que realmente importava naquele tempo, e decidido de que não passaria mais por aquilo, Alan mudaria drasticamente. “Ter visto todos os meus amigos entrando numa faculdade, seguindo com suas vidas, enquanto eu forçava meus pais a gastar o dinheiro deles para remediar a minha completa falta de interesse nos estudos foi o estopim para que mudasse minha forma de agir. Nunca mais eu sentiria aquela sensação de incapacidade. Jamais permitiria que meus pais gastassem dinheiro comigo, senão o estritamente necessário. Eu seria bem-sucedido e independente o mais cedo possível.”

O resultado, dali em diante, foi outro. No ano seguinte ele havia sido aprovado em todas as universidades públicas e optou pela Uerj. Imediatamente, seu objetivo passou a ser não somente a formação, mas estudar para o concurso do seu sonho: auditor-fiscal da Receita Federal. Um dos concursos mais concorridos do Brasil, e que exige um conhecimento considerável de 19 matérias. Ele descreveu com sabedoria a rotina estressante e cansativa na idade em que os jovens só pensam em balada: “Dos 19 aos 22 anos, quando todos iam a festas e viagens, eu estava estudando. Minha vida social se resumia à pizza de sábado em casa e a alguns filmes no cinema. Chegou ao ponto em que meus amigos e minha família nem tentavam mais me tirar de casa, pois já sabiam que a resposta seria a mesma: ‘Não posso, tenho que estudar.” Comentários do tipo “sai dessa biblioteca, você em 19 anos, aproveita a vida” e “esse concurso é impossível, é muita concorrência, é tudo montado” eram rotineiros. As influências negativas o testavam a todo instante. Por diversas vezes, Alan quis largar tudo, estudar menos, para começar a sair, voltar a viver; mas aquela sensação de derrota era simplesmente inaceitável para ele.

O desejo pelo sucesso era como respirar, e o final da história não poderia ser outro. Aos 23 anos de idade, Alan tinha se tornado auditor-fiscal da Receita Federal, recebendo um dos maiores salários possíveis via concurso público. Muito mais do que qualquer amigo talvez venha a ganhar em toda a vida. “Nada seria capaz de me afastar daquele cargo, todo o meu esforço estava voltado para aquela prova. Não importava quantos dissessem que não seria possível, quão inteligentes eram meus concorrentes, as festas perdidas, as viagens não desfrutadas, eu seria auditor-fiscal da Receita. Defendo e acredito que todos são capazes de alcançar aquilo que almejam, dependendo unicamente do quanto a pessoa está disposta a se esforçar e abrir mão. Seja aos 17, como eu, ou aos 60, como muitos colegas de concurso, encontre algo que lhe dê força suficiente para não parar. Comece aos poucos, tenha paciência, não tenha medo da concorrência, não se compare aos outros e, principalmente, nunca duvide de sua capacidade.” Só fica um conselho: opte por concurso se de fato gostar daquilo que você exercerá.

Relações
Rafael CuiaProdutor de Eventos
Rafael Cuia

Sua segunda-feira é uma festa

Se para algumas carreiras o networking é importante, para o produtor de eventos é fundamental. O divisor de águas. Saiba se relacionar e criar uma firme rede de contatos ou pule fora, lição essa que Rafael aprendeu cedo fundando a 5inco (leia-se Cinco) Entretenimentos. “Eu e meus sócios sempre fomos bem-relacionados. Todos nós trabalhávamos como promoters.* Conhecemos muita gente e, por isso, começamos a lotar as primeiras festas. Tínhamos esse lado político de falar com todas as pessoas, sempre achamos importante criar esses laços. Em pouco tempo a nossa rede já se estendia por todo o Brasil.” Escolher os sócios certos também foi crucial para que a produtora decolasse. “Eu acho que, se não fossem eles, a empresa não teria crescido. Cada um com a sua qualidade. Foram imprescindíveis para chegar aonde chegamos.” Um de seus sócios, o DJ Tartaruga, foi das boates e grandes eventos à televisão. Hoje comanda a música no programa Esquenta, da Rede Globo.

Seja a relação interna ou externa à empresa, Rafael conta que é preciso ser sincero de todas as formas, seja com amigos ou nos negócios. Independentemente dos fins, os meios precisam ser honestos e condizentes com seu caráter. Isso faz a sua rede funcionar ainda melhor, porque são criadas pontes sólidas e duradouras.

Na carreira de produtor de eventos também é importante a criatividade – o que nos remete aos pontos do Capítulo 1 sobre o pensamento divergente. Nesse aspecto Rafael sempre pensou fora da caixa. O Brasil passava por uma moda fortíssima de música sertaneja, que no Rio de Janeiro ainda era visto como um estilo brega e pouco atraente. Ele conta que o Rio de Janeiro está de frente para o mar, mas de costas para o Brasil e, por isso, não enxergava esse sucesso. A 5inco então foi a primeira produtora a fazer uma festa semanal de “sertanejo universitário”. Eles apostaram na ideia de que o Rio de Janeiro é uma cidade multicultural, com pessoas de todas as partes do Brasil, e que seria questão de tempo até cair no gosto dos cariocas. Não estavam errados. Começou em 2009 e até hoje, em 2014, é sinônimo de casa cheia. Na mesma linha divergente, eles inovariam mais uma vez. No berço do Carnaval e coração do Rio, nasceu o bloco Chora me liga, título de um dos primeiros sucessos do sertanejo universitário. Ideia que muitos diriam que não faz sentido, que é loucura, um fiasco. No entanto, mais uma vez Rafael e seus sócios estavam certos. Lotaram as ruas.

Repetindo a ousadia poucos carnavais adiante, surgiu o Carrossel de Emoções, bloco de carnaval com funk. Mais uma vez desafiando o desconhecido e se expondo ao fracasso, veio o êxito. Sua empresa hoje produz boa parte das principais festas na Cidade Maravilhosa.

Persistência também foi fator-chave na sua vida, força essa que só existiu por saber que sua vontade era viver trabalhando com eventos. “Na escola eu organizava churrascos, na faculdade, as chopadas, e depois disso vieram os eventos maiores. Fui trabalhar em uma empresa onde minha atividade era cuidar da parte de eventos. Eu fazia eventos pelo trabalho e por fora. Quando os eventos independentes passaram a dar retorno superior aos que fazia em meu trabalho, decidi largar o emprego de carteira assinada para mergulhar de vez nessa minha paixão.” Ainda que não haja as seguranças do emprego que ele tinha conquistado, a vida de produtor de eventos independente o atraiu muito. Não fazia mais sentido ficar batendo ponto em algo constante, ainda que fosse com eventos. A atração estava em criar livremente suas festas, e é isso que Rafael Cuia faz até hoje.

Amizade
Pedro LuísCantor
Pedro Luís

Sua segunda-feira é fazer um som com os amigos

Pedro Luís foi cercado de influências positivas desde o berço. Nasceu em uma família repleta de pessoas apaixonadas por música. Suas irmãs, por exemplo, começaram a tocar violão muito cedo, e Pedro, aos 6 anos de idade, já observava, encantado. O instrumento que fora apelidado de “Lobuarque”, em homenagem a Edu Lobo e Chico Buarque, foi sua primeira escola. “Eu nunca tive conhecimento teórico e nem técnico de violão, fui aprendendo vendo minhas irmãs tocarem e olhando revistas. Todo ambiente pelo qual passei, desde a escola, foi sempre musical.” Como no caso da atriz Larissa Maciel, a escola foi um aliado de Pedro Luís, intensificando suas horas de prática através das aulas de música e coral dos alunos. “Havia festivais, e eu nunca vencia. No último ano do colégio, eu acho que eles resolveram me consolar deixando ganhar todos os prêmios e, dessa maneira, me despedi do ensino médio.”

Em paralelo às atividades musicais, Pedro começou a cursar Letras na UFRJ. Opção que não deu muito certo e que acabou largando pouco mais de dois anos depois, dados seus compromissos com a música. Nesse tempo participou também de um coral regido por Marcos Leite, chamado Cobra Coral. Lá ele criou diversas amizades que caminham até hoje, como o seu preparador vocal e de boa parte da MPB, Felipe Abreu. “Marcos fez um negócio muito interessante no coral. Ele montou uma estrutura de escola para o Ricardo Marinho, que era o presidente do curso de inglês. A ideia de contratar vários professores para formar aqueles 60 coralistas foi genial. Tínhamos professores de teoria musical, de canto, de harmonia e de história. Enfim, aprendi muito e de lá saí com as boas indicações que o Marcos me fez.” O seu primeiro destino foi participar de uma banda que acompanhou o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, que dentre seus integrantes contava com Evandro Mesquita, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães e Perfeito Fortuna. Dessa experiência sairia uma peça que levaria Pedro Luís a se apresentar junto com o Asdrúbal de quinta a domingo por bastante tempo no Sesc Pompeia em São Paulo. “Nós nos mudamos para aquela cidade por causa do volume de shows. Éramos vários jovens de 20 a 23 anos morando na mesma casa com três andares. Na garagem dela montamos uma estrutura de ensaio e lá vivemos uma efervescência de aprendizagem e criação o dia inteiro.”

Muito tempo depois, em 1991, já de volta ao Rio de Janeiro, começou a dar aulas de música até receber convites para dirigir dois trabalhos: do grupo Boato, formado nos pilotis da PUC, e da cantora Arícia Mess. “Eu comecei a dirigir esses dois trabalhos, pensar o repertório, arranjos e a coordenar os músicos. Mas acabei não resistindo e me chamaram para o palco de volta. Para tocar e cantar, além de ser diretor musical. E nesses dois trabalhos começou a se formar o repertório inaugural e os integrantes do que viria a ser o Pedro Luís e a Parede.”

Alguns anos depois Pedro Luís e Fernanda Abreu compuseram duas músicas juntos para o disco dela chamado Da lata. Desse ponto em diante o seu nome começou a transitar pelo meio artístico e pequenos trabalhos começaram a surgir, até que o produtor Liminha foi a um de seus shows e lhe ligou, querendo uma música para O Rappa. A carta de ouro que ele tinha nos shows era a sua música Miséria S.A. prontamente aceita pelos integrantes d’O Rappa e que viria a ser parada de sucesso em todas as rádios do país.

A próxima oportunidade apareceria no dia do aniversário do “CEP Milsica”, apresentado pelo Michel Melamed, um poeta e apresentador com quem ele tinha boas relações. “Liguei para o C.A Ferrari e para o Sidon dizendo que tínhamos um espaço de trinta minutos. Chamamos para compor aquela bagunça o Mário Moura e o Celso Alvim. A ideia era fazer um show portátil que interagisse com a plateia. Então surgiu a ideia de eventualmente nos alinharmos no show feito uma parede. Todos na mesma linha do cantor. Dessa ideia surgiu o nome Pedro Luís e a Parede (PLAP).” Nesse mesmo tempo Pedro tinha começado a fazer a faculdade de Música, mas largou dois anos depois por conta da sua nova banda, chegando a gravar dois CDs com a produtora Warner e a despontar relativo sucesso.

Passou algum tempo de águas mornas até que, no ano de 2000, a Parede foi convidada a fazer um workshop de percussão no Sesc Vila Mariana. A ideia seria fazer uma oficina que adaptasse alguns ritmos que eles usavam na banda ao instrumental das escolas de samba, e isso desembocaria no show com alunos que eles formariam por lá. “Foi sensacional porque a gente viu que funcionava muito bem, e dali estava se formando o que viria a ser o nosso bloco de carnaval. Trouxemos a ideia para o Rio implantando uma oficina permanente durante este ano. Fizemos duas apresentações no Malagueta em São Cristóvão, que não deram certo. Tinha mais gente tocando na bateria do que público assistindo.”

Fracasso total, mas de alguma forma eles entendiam que ali havia um caminho. Após um famoso bloco de carnaval desistir de se apresentar nas sextas-feiras no Horto, espaço para 2 mil pessoas, surgiu o convite de substituí-los. “No primeiro final de semana que fizemos, lotou a casa, e do segundo até o oitavo final de semana era casa cheia com pelo menos a mesma quantidade do lado de fora querendo entrar. Sucesso total.” O nome da banda surgiu, novamente, pela forma como eles tocavam. “A gente gostava muito de gravar com microfone aberto e nós da PLAP em volta dele, um microfone antigo mono, e batucávamos um som de bloco, e aí com essa história de criar as oficinas para o bloco de carnaval, o nome saiu naturalmente: Monobloco.” Foram para as ruas no Carnaval do ano seguinte e eles se lembram de questionar se iria encher, porque mesmo com sucesso nos shows, ainda eram pouco conhecidos pela maioria das pessoas. O resultado foi exatamente o mesmo que no ambiente fechado. Primeiro pelas ruas da Gávea, depois pelas ruas do Leblon completamente cheias. Os “problemas” com os moradores começaram a surgir. Mudaram de locais diversas vezes. Passando por Copacabana sete anos depois do primeiro ano de bloco de rua, com público estimado agora em 200 mil pessoas. Dois anos depois, em 2009, por mais pressão, mudaram-se para a avenida Rio Branco (principal rua do centro do Rio de Janeiro), virando até hoje a tradição do domingo que fecha o Carnaval com mais de 400 mil pessoas.

De uma maneira ou de outra, Pedro teve desde 6 anos de idade um contato quase que diário com a música, ora por influência da família, ora por seus amigos. Ainda que não tivesse em sua vida uma formação musical completa, sua escola foram os diferentes ambientes e experiências pelos quais passou, tornando-o um gênio da música popular brasileira e sucesso pelas criações que realiza.

Curiosidade
Eduardo VarelaDesigner
Eduardo Varela

Sua segunda-feira é a curiosidade

Último ano do segundo grau na escola Santo Agostinho. A ansiedade aumenta entre os alunos da escola, e uma atmosfera vocacional forte paira entre Eduardo e seus amigos. “Boa parte da minha turma tendia ao curso de Engenharia, alguns para o Direito e outros para a Medicina, mas pouco se viam outras escolhas entre os desejos daquela garotada aos 17 anos. Nós tínhamos a preferência por uma estrada já conhecida.” Mesmo sonhando ser músico, Eduardo foi fazer Engenharia.

Apesar de nutrir um gosto por matemática e física, o curso não o encantava. Estava fazendo para ter um diploma, pois sua vontade desde os 12 anos, quando começou a tocar violão, era ser músico. “Somos em geral muito novos para decidir qual faculdade fazer. Tomamos a decisão de largar quando vemos na prática aquilo que estamos aprendendo na teoria – no estágio, pelos amigos que fazemos e até pelo que os professores da faculdade dizem sobre a carreira. Eu me deparei com essa realidade aos 20 anos e no mesmo ano larguei o curso.” Conversando com seus pais, Eduardo estava decidido a entrar para o curso de Arquitetura. Ele relata que havia uma necessidade de conectar sua curiosidade pelos aspectos técnicos da engenharia e a criatividade que vinha da música. No entanto, em conversa com um de seus amigos, o caminho do design veio à tona. Já mais maduro, procurou saber mais sobre o curso pesquisando e conversando com outras pessoas. Fez uma escolha agora mais embasada, lúcida, e que de fato tinha a ver com o que ele gostaria de estudar.

Decisão tomada, Eduardo se preparava para o vestibular; a aprovação veio logo em sequência. Desta vez, tudo era bem mais interessante. “O meu desejo estava sempre voltado para a criação, fosse pela música ou pelo desenho. Desde garoto eu sempre gostei de desenhar, e esses rabiscos eram planejados, havia um interesse por ilustrar pensando na parte técnica, na sistematização e nas funções. Se eu desenhasse uma guitarra, eu não me preocuparia somente com o estilo, mas também se ela funcionaria caso fosse posta em prática.”O Design fez essa importante junção da arte com o sistema.

Dez anos depois de concluir seu curso, Eduardo foi trabalhar na Osklen como chefe do departamento de design, o que para ele foi bem curioso. Quanto a isso, ele faz uma ressalva interessante sobre os caminhos que nossa carreira pode tomar e a felicidade oculta nesse percurso: “Sou também professor da graduação e de alguns outros cursos, e sempre na primeira aula faço uma pergunta aos futuros designers: ‘Vocês gostam de qual área do design?’. Não adianta vocês acharem que a opinião será a mesma sempre. Eu nunca diria que trabalharia com moda e hoje, além de normal, acho extremamente recompensador. Essa vastidão de mercado que o Design proporciona facilitará sua vida, e tudo que você precisa saber é se gosta de solucionar problemas de forma criativa. Isso é o Design.”

Ainda que suas escolhas não o tenham levado a ser músico, Eduardo conta que ao ter a música como hobby já se sente preenchido. O design tomou conta dos seus dias e significa apenas o ponto de partida para uma imensidão de conhecimento. A escolha do curso não basta, mas sim o quão curioso você se torna dentro daquilo que escolheu. “Hoje estudo tudo, menos design. Estudei campos que vão da filosofi a até economia comportamental e tomada de decisão. À primeira vista pode parecer que não há correlação entre essas áreas, mas é justamente nelas que eu me aprimoro. Essa curiosidade é que realmente leva ao aperfeiçoamento; a faculdade é apenas uma direção.”

Ousadia
Rafael GebaraDJ
Rafael Gebara

Sua segunda-feira é fora da caixa

Foi quebrando regras que Rafael Gebara, conhecido como DJ Shark, conquistou seu espaço na noite carioca e em todo o Brasil. Sua carreira começou não muito diferente da de grande maioria dos profissionais de sua área: tocando em festas de playground, em casa, como hobby e até em alguns eventos esporádicos de faculdade, brincadeira essa que ficou ainda mais interessante quando começaram a pagar por ela. Deste ponto em diante, Rafael passou a investir mais dinheiro em aparelhos e a profissionalizar sua diversão. Por falta de locais para fazer festas, ele – junto ao apoio incondicional de sua mãe – fazia cerca de 300 convites e vendia aos seus amigos, juntando todos em sua própria casa. Ele lembra que esta foi a primeira de suas ousadias que de certa forma deu certo.

A vida estava ótima. Passava o dia tocando e pensando em novas festas. Até que um dia seu pai faleceu, devido aos poucos cuidados que tinha com a saúde, pegando todos de surpresa e deixando um mundo de novas obrigações em suas costas, onde até então só havia a preocupação em se divertir. “A morte de meu pai foi um completo choque em minha vida e me forçou a amadurecer ainda mais rápido. Com apoio da minha mãe continuei a estudar e consegui terminar a faculdade de publicidade, sempre levando em paralelo a minha vida de DJ.” Com a sua formação, Rafael começou a inovar sua maneira de autopromoção, tendo cuidado especial com sua imagem e como ela chegava até as pessoas. Esta eu qualifico como a “primeira regra” que ele quebrou: mostrar aos clientes uma imagem melhor, quando pouquíssimos eram os DJs que se importavam com isso. Entenda que ao dizer “quebrar uma regra”, estou, na verdade, me referindo a inovação. Sair do senso comum e agir diferente.

Dada a escassez de locais para mostrar seu trabalho, Rafael resolveu começar a produzir os próprios eventos. Estava quebrando mais uma regra, e isso precisava ser feito de forma incrível. Sua ideia, era trazer um cantor de hip-hop muito famoso e que hoje possui 90 milhões de visualizações no youtube, Sean Kingston. Só havia um problema: ele não tinha dinheiro nem para comprar um cachorro-quente. “Eu não tinha dinheiro nenhum e estava anunciando em todos os cantos que haveria um show com o Sean Kingston. Eu sabia que ele custava 50 mil dólares e era isso que eu teria de arrumar para tê-lo em meu evento. Vendi ingressos antecipados, pedi dinheiro emprestado para muita gente e consegui aquela quantia faltando uma semana para o evento.” Tudo certo, agora era só focar nas vendas e esperar o dia. Rafael estava realizado com tudo aquilo, seu plano de anunciar um cantor daquele quilate sem dinheiro algum tinha dado certo. Todavia, sua pouca experiência de vida cobraria um preço alto pouco depois. “Em vez de ir pelas vias normais, que seria falar com o seu agente, atravessamos e fomos direto à mãe do cantor. Demos o dinheiro a ela e aguardamos a sua vinda. No entanto, ela ficou com todo o dinheiro, o agente descobriu nossa articulação e não autorizou a vinda. Eu tinha queimado 50 mil dólares que não eram meus e estávamos a poucos dias do evento. Mal tinha começado a minha carreira e ela já estava acabando.”

Rafael ficou atônito e desesperado por algum tempo, sem saber o que fazer. “Eu tratei de me acalmar, colocar a cabeça no lugar e agir da melhor maneira. Entrei em contato com alguns amigos fora do país e negociamos com Lloyd Banks, um cantor tão famoso quanto o Sean, mas por uma quantia bem mais amigável. Novamente sem dinheiro, nós o trouxemos e o evento aconteceu. Mesmo não cobrindo todos os gastos e criando uma dívida considerável no banco, eu tinha feito o evento dar certo e aquilo abriria muitas portas para mim.”

Não muito tempo depois, Rafael conseguiu quitar todas as dívidas e algo engraçado aconteceu. “Eu gostei dessa ideia de arriscar. Comecei a assumir outras dívidas, só para trazer os caras lá de fora. Fiz evento com Montell Jordan, Sky Blue, Dev e vários outros. Com o Lil Jon cheguei a fazer turnê por todo o Brasil e viramos grandes amigos.” A sacada de gênio do agora famoso DJ Shark foi ótima: enquanto todos estão preocupados em ser DJ, vou ser também produtor.

Com humildade e simpatia ímpares, Rafael evidencia o porquê de merecer o reconhecimento que tem dentro e fora dos meios em que atua. Ele entendeu cedo que acreditar em si mesmo, quebrar regras, não ter medo do fracasso, não escutar os pessimistas e esforçar-se ao máximo são elementos-chave para ser bem-sucedido em sua carreira. E a felicidade? Está em tudo que faz.

Você
Agora é a sua vez!
Agora é sua vez

Agora é sua vez!

Ter uma segunda-feira agradável exigirá muito de você. Da sua coragem, da sua vontade e muitas vezes da sua criatividade. Colocar a felicidade a frente é a única regra. Mesmo sem conhecer você, eu posso afirmar com toda certeza que a sua história poderia ser uma das contadas no livro. Todos nós somos perfeitamente capazes de sonhar e realizar, independente de infortúnios que a vida traz.

(Até aqui nada diferente do que você já – provavelmente – leu em sua vida)

O que não te contaram é que não existem regras, fórmulas ou segredos. Eu prefiro verdades e por isso fui atrás da ciência e de histórias reais. Na sua vida você mesmo precisa criar as perguntas e responde-las. Por isso eu acredito na provocação. Convido você a refletir sobre todas as coisas que passou na vida e a tomar decisões centradas no coração. Esqueça essa coisa de estabilidade, segurança... Se o que você gosta tem essas coisas, ótimo. Se não tiver, vai assim mesmo. Torne-se curioso!

Entenda que a realização de um projeto de vida em direção a algo que lhe agrade é árduo e a zona de conforto provavelmente precisará ser jogada de lado. Muitos vão discordar de você e às vezes chama-lo de louco. Faz parte de todo processo e já não é novidade.

Se pedir demissão do seu trabalho amanhã o acharei normal. Minha maior recompensa será receber um e-mail seu dizendo que as coisas mudaram ou que de alguma forma ajudei.

Escreva pra mim: brunomendes@suasegundafeira.com.br

Deus o abençoe.

Felicidades,

Bruno Mendes

Sobre o autor

Ter sido o pior aluno em todos os anos da escola e não ter a mínima ideia do que fazer da vida até os 22 anos de idade era algo que me incomodava. Será que o trabalho precisa ser mesmo um fardo? Vou passar boa parte da minha vida fazendo algo que não gosto?

Depois de descobrir o que me empolgava para levantar da cama numa segunda-feira, hoje sou doutorando em Administração pela PUC-Rio, mestre em Administração pela FGV, com especialização em Empreendedorismo pela École Supérieure de Commerce de Paris. Aos 28 anos, atuo como professor universitário, palestrante e escritor.

Não ter gostado da escola e ter encontrado meu caminho justamente nas salas de aula e nos estudos é paradoxo suficiente para mostrar quão interessantes podem ser os caminhos da vida e a escolha de nossa carreira.

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